
Ao menosprezar o peso de candidaturas consolidadas em nome de arranjos paroquiais de ocasião, o partido coloca em risco a sustentação de Lula em 2027.
Existe uma fronteira tênue entre a ousadia política e o suicídio tático. A conduta do diretório estadual do Partido dos Trabalhadores no Maranhão ultrapassou essa linha com folga, optando por um movimento de gabinete que flerta abertamente com o contrassenso e sabota o projeto nacional de seu maior líder, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Ao afunilar quase toda a sua energia, recursos e discurso na validação da candidatura de Felipe Camarão ao Governo do Estado — um nome que, apesar das funções institucionais exercidas nos últimos anos, amarga patamares modestos de intenção de voto nas pesquisas recentes —, a cúpula do PT maranhense incorre em um duplo erro. O primeiro é ignorar a frieza dos números de opinião pública, onde o candidato patina sem conseguir furar a bolha de desconhecimento ou rejeição do eleitorado amplo. O segundo, e infinitamente mais grave para o país, é rifar na prática a eleição para o Senado Federal, vulnerabilizando a cadeira de Eliziane Gama.
O cálculo do Palácio do Planalto para o cenário pós-2026 é cristalino: a governabilidade do Brasil, a manutenção da estabilidade democrática e a blindagem contra eventuais investidas extremistas dependem, antes de tudo, da formação de uma maioria sólida de centro-esquerda nas 81 cadeiras do Senado. Foi imbuída dessa missão que Eliziane Gama — relatora da CPMI do 8 de Janeiro e peça de resistência institucional do governo — filiou-se ao PT sob as bênçãos e o apadrinhamento direto de Lula.
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Entretanto, enquanto o presidente da República enxerga a eleição para o Senado como uma trincheira vital contra a consolidação do bolsonarismo conservador (encarnado localmente no avanço de nomes como Lahesio Bonfim e Roberto Rocha), a burocracia do PT maranhense prefere apostar todas as suas fichas no sonho de ocupar o Palácio dos Leões.
Ao priorizar Camarão — um quadro vindo da política tradicional que, a exemplo de Eliziane, ingressou tardiamente na legenda — o partido adota um incoerente duplo padrão:
- Trata o candidato ao Executivo com um estrelato desprovido de respaldo orgânico nas urnas.
- Trata a candidata ao Senado como um “corpo estranho”, empurrando-a para o isolamento em um cenário eleitoral em que a chapa governista se pulveriza em rivalidades paroquiais.
O resultado prático dessa miopia de bastidor é o esvaziamento da única postulação ao Senado verdadeiramente alinhada com as pautas urgentes de Brasília. Dividindo o eleitorado progressista no estado e ignorando a necessidade de construir um palanque forte para Eliziane, a direção do PT-MA prepara o terreno perfeito para que o extremismo bolsonarista abocanhe ao menos uma das vagas ao Congresso.
Não se trata apenas de uma escolha infeliz de prioridades; trata-se de um ataque velado ao projeto de governabilidade do próprio presidente Lula. Quando a burocracia regional do PT-MA se recusa a pavimentar o caminho de Eliziane Gama — que assumiu o ônus da CPMI do 8/1 e migrou para a legenda com o aval explícito de Lula — para priorizar vaidades de grupo e rivalidades do dinismo contra o brandonismo, o preço não é pago apenas pelas legendas estaduais — é cobrado em escala nacional na forma de um deserto institucional e de uma ameaça concreta de retrocesso civilizatório e avanço das injustiças sociais.
Depois, depois…
