EM RESUMO: “O racha no grupo que governou o Maranhão não é apenas uma disputa por espaço; é o retrato cru de um projeto que confundiu poder com eternidade. O dinismo acreditou que prestígio se transferia por decreto, que acordo substituía voto e que indicação valia mais do que base política. Errou. Felipe Camarão foi apresentado como herdeiro, mas não construiu densidade própria, não mobilizou o PT, não formou bancada e não demonstrou força real para obrigar Brandão a cumprir o roteiro desejado.
Brandão, por sua vez, fez o que a política profissional ensina: ocupou o espaço vazio. Com a caneta, a máquina e a articulação nas mãos, recusou-se a ser governador decorativo. Ao fincar o pé, desmontou a fantasia de quem queria comandar o Estado sem ter construído força suficiente para isso. Na política, acordo sem lastro é papel molhado; liderança sem voto é retórica; arrogância sem base é isolamento.
O resultado é uma esquerda governista desorientada, que, em vez de reconstruir sua coerência junto às bases populares, flerta com alianças de conveniência e entrega ao eleitor a pior mensagem possível: a de que ideologia vale menos do que sobrevivência eleitoral. Quem paga essa conta é o povo, que assiste à política virar dança de cadeiras enquanto suas demandas reais seguem tratadas como detalhe.
No fim, a lição é simples e dura: Brandão venceu porque ocupou o terreno. O dinismo perdeu porque achou que ainda era dono dele.”
A ideia de que “todo político é ladrão” ou de que “a política não serve para nada” não nasce por geração espontânea; ela é um produto cuidadosamente cultivado. Quando a classe política abdica do debate de projetos e se afunda no pragmatismo fisiológico e na guerra rasteira de dossiês, ela valida o roteiro de uma elite econômica que odeia o Estado, mas adora se servir dele. A criminalização da política é a maior armadilha já criada contra as classes populares, pois desidrata o único instrumento capaz de promover a justiça social e combater a farsa da meritocracia — afinal, ninguém nasce pobre por desígnio divino, mas sim por uma engrenagem econômica e histórica que o Estado tem o dever de corrigir.
No Maranhão, essa armadilha ganha contornos dramáticos. O atual cenário de racha na base governista ilustra com perfeição como o esvaziamento ideológico e os erros de cálculo estratégico pavimentam o caminho para o retrocesso e para a ascensão da velha política disfarçada de novidade.
Do Braço Forte à Fragmentação do Poder
É um erro analítico profundo tratar o governo de Carlos Brandão como uma mera continuidade da gestão de Flávio Dino. São duas naturezas de poder completamente distintas. Dino governou por quase oito anos sob a mística da “mudança”, centralizando as decisões sob um “braço forte” que mantinha uma coalizão eclética e heterogênea sob rédea curta, unida pelo contraponto ao domínio histórico do grupo Sarney.
Ao assumir em definitivo e buscar a reeleição, Brandão deparou-se com um cenário fragmentado: o grupo, antes unido pela tomada do poder, converteu-se em frações digladiando-se por espaço. Na mecânica fria do poder, espaço vazio não existe. Se Brandão não “fincasse o pé” e demarcasse seu território, seria engolido pelo fantasma do “dinismo”. O que a militância romântica enxerga como “traição” de um acordo firmado em 2022, a realpolitik revela como a reação natural de quem tem a caneta e recusa-se a ser um governante decorativo.
Culpar apenas a “quebra de acordo” de Brandão é uma narrativa confortável para esconder a incompetência estratégica do próprio dinismo. Eles venceram a eleição, mas perderam a capacidade de formular o dia seguinte. Deixaram o herdeiro político isolado na chuva, sem base e sem votos, enquanto assistiam Brandão fazer o que qualquer político profissional faria: usar a máquina pública para fincar o pé, ditar as regras do jogo e reconfigurar o tabuleiro do Maranhão sob o seu próprio comando. Ao apostar todas as fichas em um único nome sem densidade — e ver esse nome falhar na articulação política —, o grupo dinista ficou sem nenhuma outra liderança de peso para substituí-lo.

O Erro da Unção: O Fator Felipe Camarão
O calcanhar de Aquiles do grupo dinista foi a incapacidade de compreender que liderança política não se transfere por osmose ou decreto de gabinete. A escolha de Felipe Camarão como sucessor natural, se não equivocada, mostrou-se precipitada e baseada em premissas frágeis. Camarão revelou-se um burocrata e gestor eficiente na Cultura e na Educação — onde a vitrine do programa “Escola Digna” limitou-se, em grande parte, ao plano estético do tijolo e do cimento, sem profundidade no debate sobre métodos de ensino ou valorização real da carreira docente.
O erro fatal de Flávio Dino foi ungir um candidato que não possuía “chão de fábrica” político. Sem o aprendizado da militância de base, sem o traquejo do movimento estudantil e sem densidade eleitoral orgânica, Camarão esperou o fruto cair maduro. Não construiu um grupo de prefeitos leais, não formou uma bancada robusta de deputados e não mobilizou o PT por dentro.
Para piorar, o pré-candidato e seu entorno passaram a agir com a soberba dos escolhidos, portando-se como se fossem maiores do que o próprio governador. Nenhum governante aceitaria criar uma cobra em seu próprio ninho para entregar a máquina estadual em 2026 a um grupo que sequer lhe prestava a liturgia do respeito. Sem plano B e sem outras lideranças preparadas para substituí-lo, o dinismo viu sua fantasia desmoronar diante do pragmatismo de Brandão.
Em política, arrogância sem voto é a receita para o isolamento. Brandão não tinha motivos para criar uma cobra no próprio ninho. Ao ver um pré-candidato sem berço político se portar como o verdadeiro dono do Estado, Brandão fez o óbvio: usou o pragmatismo e a força do cargo para desmontar a fantasia dos dinistas. No fim, o grupo de Flávio Dino colheu o fruto da sua própria pressa e da incapacidade de entender que o Maranhão real se governa com articulação de chão, e não com decretos de gabinete.
Em política, assina-se um acordo, mas é preciso ter competência para construí-lo. Se o grupo dinista — e figuras como Felipe Camarão — não conseguiu construir densidade eleitoral própria ao longo da última década, não cabe ao atual governo pagar a conta dessa inabilidade entregando a chapa a nomes que colocaria em risco o projeto político idealizado por Flávio Dino.
Pela força de sua governança e articulação, o governador Carlos Brandão conquistou o direito político de indicar o seu sucessor.
O Abraço no Pragmatismo Desesperado
O desfecho dessa autofagia é melancólico para a esquerda maranhense. Isolados pela máquina de Brandão e desprovidos de votos próprios, os “dinistas de mandato” abandonaram qualquer coerência ideológica. Em vez de buscarem alianças programáticas na base com partidos autênticos e fiéis como o PSOL ou o PSTU para construir uma bancada orgânica com o apoio do presidente Lula, preferiram o caminho do desespero institucional.
Hoje, esses mesmos setores ensaiam uma aproximação oportunista com o prefeito de São Luís, Eduardo Braide — uma liderança de centro-direita que surfou no bolsonarismo quando lhe foi conveniente e que agora tenta atrair os órfãos do Palácio dos Leões. Ao buscarem abrigo sob o teto de Braide para garantir a sobrevivência de suas frações de poder, os políticos da antiga “mudança” dão adeus ao que um dia acreditaram ser. Quanto mais tentam convencer o eleitor de que ainda defendem os mesmos princípios, mais revelam sua verdadeira face.
A Dança das Conveniências
Como explicar que lideranças que se dizem de esquerda, formadas na militância estudantil e nos movimentos sociais, se sintam confortáveis ao lado de um gestor que personifica o oposto da construção coletiva? Braide, com seu estilo solitário e centralizador, representa o auge da política individualista, aquela que o campo progressista sempre jurou combater. Ao fazer esse movimento, o grupo dinista admite que a ideologia é um acessório descartável quando o que está em jogo é o tabuleiro do poder. É a troca do “conteúdo” pelo “espetáculo” da vitória a qualquer custo.
Este movimento é um prato cheio para o Capital. Quanto mais os grupos políticos se mostram camaleônicos e desprovidos de espinha dorsal ideológica, mais o povo se afasta da política por nojo ou desilusão. O cidadão olha para o palanque e não vê propostas de mundo diferentes; vê apenas atores trocando de máscaras. Ao apoiar Braide, o grupo dinista valida o modelo de gestão do “Estado sou eu”, jogando por terra anos de discurso sobre democracia participativa e fortalecimento das instituições. O que importa, ao que parece, é apenas derrubar o “inimigo” da vez.
A contradição é gritante: critica-se a oligarquia — que é o governo de poucos — para apoiar o absolutismo — que é o governo de um só. Para o eleitor do bairro Piancó, que espera por políticas estruturantes de longo prazo, esse jogo de cúpula é um insulto. Enquanto os grandes líderes decidem quem apoiar baseados em conveniências eleitorais de 2026, as pautas reais da esquerda, como a justiça social e a defesa do serviço público contra a sanha privatista, ficam em segundo plano, servindo apenas como notas de rodapé em discursos vazios.
