A rapidez da minha fala e a tola tentativa de enclausurar o mundo na objetividade imediata da palavra

Dizem-me, com frequência, que falo demais. Que falo rápido demais. Reclamam que trago para a mesa assuntos que estão “fora da diversão”, rompendo a anestesia confortável do riso fácil com reflexões que exigem fôlego. Estranham o meu processo: o sobressalto do pensamento que muda de rota antes de pedir licença, o texto que começo hoje, abandono amanhã para iniciar outro, e que só concluo semanas depois, quando reencontro aquele rascunho esquecido e o finalizo com um sopro de ar fresco — um texto oxigenado pelo tempo.

Eu falo e construo assim. O problema de quem não compreende esse ritmo não está na velocidade da minha voz, mas na tola tentativa de enclausurar o mundo na objetividade imediata da palavra. Há uma obsessão contemporânea em criar nexos mecânicos entre frases, como se a vida fosse uma linha reta e a verdade pudesse ser medida por uma régua gramatical. Essa urgência de “entender” de imediato é, na verdade, o maior limite para se ver o mundo.

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Compreender não é Responder Provas

Há uma diferença fundamental entre o “entender” e o “compreender”:

  •  O Entender resulta: É estático. Responde-se a provas com o entendimento. Preenchem-se questionários, definem-se conceitos, criam-se relatórios objetivos. O entendimento é uma concessão que fazemos à máquina burocrática do mundo para que ela funcione.
  •  A Compreensão movimenta: É cerâmica. Ela não se dá no estalo do clique, mas no assentamento lento de peças que pareciam não se encaixar. Ela exige o tempo do bar, o silêncio da noite, o diálogo que retorna dias depois sobre outro assunto, mas trazendo na bagagem o pedaço que faltava para assentar a nossa percepção.

Quem me acusa de falar rápido ou de mudar de assunto busca apenas o entendimento imediato — quer uma resposta rápida para a sua prova diária de eficiência. Eu, porém, não estou interessado em resultar; estou interessado em movimentar.

Escrevo por pedaços, falo por curvas, abandono textos para que respirem e os concluo quando estão prontos para oxigenar quem os lê. Porque a vida não é uma assembleia com pauta fechada e ordem do dia; ela é uma mesa de bar às cinco da manhã. E é ali, no mosaico das palavras soltas e das ideias que parecem fora do lugar, que a verdadeira compreensão humana se constrói, peça por peça, como cerâmica.

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