O líder do governo Lula, senador Jacques WagnerA recente atuação da Polícia Federal (PF) trouxe à tona o debate sobre a independência das instituições de Estado no Brasil, evidenciando uma mudança drástica de postura entre o atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva e a gestão anterior de Jair Bolsonaro.
No governo Lula, a corporação tem demonstrado atuar de forma livre e sem amarras governamentais, investigando “doa a quem doer”. Um dos maiores atestados dessa autonomia é o fato de que nem o próprio presidente da República foi avisado previamente sobre operações sensíveis, demonstrando a não interferência nas investigações em curso. Essa postura de isenção também tem sido aplicada à própria família do presidente. Investigações que miraram o filho de Lula, no caso do INSS, e o sindicato de seu irmão ocorreram sem que o governo tentasse barrá-las, com o próprio presidente afirmando que quem estiver envolvido em irregularidades deve pagar o preço.
Esse cenário destoa frontalmente do modo como a PF era tratada durante o governo Bolsonaro. Historicamente, a gestão anterior foi marcada por sucessivas tentativas de blindagem de aliados políticos e familiares do ex-presidente. Até dezembro de 2021, o governo Bolsonaro já havia promovido a troca de ao menos 20 delegados de cargos de chefia na Polícia Federal, frequentemente afastando aqueles que chegavam perto de investigar pessoas do seu círculo íntimo.
A interferência bolsonarista na corporação foi tão latente que culminou na demissão do então ministro da Justiça, Sérgio Moro. O ex-ministro deixou o governo alegando pressões indevidas de Bolsonaro, que tentava trocar a chefia da superintendência da PF no Rio de Janeiro para proteger seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, no escândalo das “rachadinhas”. A disposição para intervir ficou registrada em vídeo na infame reunião ministerial de 22 de abril de 2020, quando Bolsonaro admitiu abertamente que não esperaria “foder a minha família toda” e que, se fosse necessário, trocaria a segurança na ponta da linha, os chefes da corporação e até mesmo o ministro.
A interferência de Bolsonaro também freou atuações institucionais em outras frentes. Sérgio Moro relatou que foi desestimulado a atuar contra uma liminar judicial que paralisou todas as investigações de lavagem de dinheiro no país por cerca de quatro meses, apenas porque a paralisação beneficiava os processos de Flávio Bolsonaro. Em outro caso de retaliação direta, o superintendente da Polícia Federal no Amazonas foi afastado imediatamente de seu cargo logo após ter noticiado ao Supremo Tribunal Federal indícios de contrabando de madeira envolvendo o então ministro bolsonarista Ricardo Salles.
A atual independência permitiu, inclusive, que esquemas passados viessem à tona, como a liquidação do Banco Master pelo Banco Central — sob a gestão de indicados do governo Lula — e a consequente investigação livre da PF, contrastando com a inércia da gestão de Roberto Campos Neto, nomeado por Bolsonaro, que havia autorizado a atuação financeira dos empresários agora investigados.

PF investiga fraudes envolvendo Banco Master e propinas
A nona fase da Operação Compliance Zero da Polícia Federal colocou na mira o líder do governo no Senado, Jaques Wagner, demonstrando a ausência de amarras partidárias da corporação. A investigação foca em fraudes envolvendo o Banco Master e apura a suspeita de que o senador usou sua influência parlamentar para beneficiar propostas de interesse da instituição de Daniel Vorcaro no Congresso Nacional.
A Polícia Federal investiga se Wagner recebeu R$ 3,5 milhões em propinas e um apartamento de luxo em Salvador avaliado em R$ 2,5 milhões, repassados supostamente por meio de uma empresa ligada a um familiar. Além dos bens imobiliários, entre os supostos repasses de vantagens indevidas, constam cinco ingressos para um show da cantora Taylor Swift em Los Angeles, estimados em cerca de R$ 65.000, com a viagem sendo realizada em um jatinho particular cedido por Augusto Lima, empresário ligado ao caso.
Durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao senador em Brasília e na Bahia — sendo vedada apenas a entrada em seu gabinete no Senado — os agentes apreenderam R$ 55.000, cerca de € 33.500 e $ 6.175 em espécie, além de relógios e equipamentos eletrônicos.
Em sua defesa, Jaques Wagner negou qualquer envolvimento ilícito e justificou que os altos valores em espécie encontrados em sua residência são sobras de diárias de viagens internacionais pagas pelo Senado desde 2019. O parlamentar alega que costuma usar o próprio cartão de crédito no exterior, acumulando as moedas estrangeiras que foram entregues nos envelopes originais do Senado. Ele reafirmou manter sua candidatura política e negou ter relações próximas com Daniel Vorcaro, ressaltando que sua interação no passado se deu pontualmente na época da privatização da rede de supermercados Cesta do Povo.
