
No teatro da política maranhense, poucas coisas são mais poéticas do que assistir a um mestre do transformismo partidário reclamar de ter caído em uma “arapuca”. Durante sua convenção do PRTB nesta terça-feira (4), o ex-senador Roberto Rocha subiu ao palco para dar uma verdadeira aula de indignação coreografada. O alvo? A aliança entre o prefeito Eduardo Braide (PSD) e Lahésio Bonfim, acusada pelo ex-senador de ter sido tecida nos bastidores para puxar o seu tapete e esvaziar a direita “raiz” no estado.
Livre de qualquer pudor retórico, Rocha partiu para o ataque frontal. Sem apresentar provas — mas com a verve de quem fala com a autoridade de quem conhece o riscado —, disparou insinuando acusações sobre “porta-malas cheios de dinheiro” e “milhões de razões” que teriam demovido Lahésio da disputa ao Governo para jogá-lo diretamente na vaga de candidato ao Senado. Vaga esta que Rocha julgava ser sua por direito divino.
A ironia, contudo, escorre da cena como verniz barato no sol de agosto. Ver Roberto Rocha bradar contra o veneno da traição política é quase uma experiência estética. Afinal, a memória eleitoral do Maranhão não é tão curta a ponto de esquecer 2018, quando o mesmo Rocha ascendeu ao Senado levado nos ombros e no fiador político de Flávio Dino — para, no minuto seguinte ao desembarque em Brasília, romper, dar o troco e passar os anos seguintes convertendo seu mandato numa cruzada pessoal contra o ex-padrinho. Aparentemente, na cartilha de Rocha, a traição só adquire contornos morais graves quando o punhal atinge as suas próprias costas.
A contradição, no entanto, ganha contornos de pura comédia política. Ao direcionar suas baterias contra a dupla Braide e Lahésio, Rocha acaba cumprindo, com vigor exemplar, um papel que deveria ser da própria esquerda e do “dinismo”: o de abrir uma linha de ataque contundente contra a gestão municipal de São Luís e a ameaça de um projeto radical. Enquanto Rocha faz barulho, o dinismo/ lulismo tosco assiste de camarote, poupado de ter que travar a cobrança direta e o enfrentamento de ideias na capital.

Mas o feitiço vira contra o feiticeiro na geopolítica eleitoral: ao focar sua metralhadora exclusivamente no fogo amigo para tentar salvar sua biografia, o paladino da direita conservadora presta um inestimável serviço à sociedade e, em última instância, à governabilidade do governo Lula. O combate feroz entre aqueles que disputam a mesma fatia do eleitorado termina por expor as contradições e o risco real que as figuras de Braide e Lahésio representam — uma linha de análise que vem sendo apontada com lucidez e coragem por espaços independentes de análise crítica, como esse blog e outros poucos.
É no calor desse tiroteio entre facções da centro-direita que o eleitor assiste, em camarote VIP, à revelação dos podres da politicagem local. No auge do desabafo, Rocha ainda teve a franqueza de admitir que sua própria candidatura ao Governo começou como um “blefe” para forçar negociações — tática que ruiu no momento em que “bateram a porta na minha cara”.
Ao prometer cobrar satisfações nos debates, Roberto Rocha garante que a campanha eleitoral terá o tom da lavagem de roupa suja em praça pública. Na briga do ecossistema político tradicional, a máscara da virtude cai, a briga entre os grupos escancara os bastidores, e o pretenso “salvador da direita” descobre que, no final das contas, virou a ferramenta mais eficiente para dar munição justamente ao campo que ele jurava combater.
Tudo bem pode resolver. Mas não deixa de ser triste o papel do dinismo. Mais triste ainda, como a ordem dos fatores não altera a soma: no resultado todos se igualam e, nos nove fora, eles que se danam.
