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D epois de dois anos de intensa maturação, é hora de recolocar as palavras no seu devido lugar. Sempre defendi uma premissa que, para mim, ecoa como uma verdadeira proposta de vida: eu sou jornalista, não estou jornalista. A essência desta profissão não é um crachá que a gente pendura no fim do expediente ou uma fase que passa; é a lente permanente pela qual se enxerga o mundo.
Nesses últimos tempos, a vida exigiu de mim outras pautas, daquelas que não se publicam na primeira página. Enfrentei desfalques financeiros e amorosos, passei por aquelas “inquisições amigáveis”, que já não me botam fogo às vestes. Hoje, lamento. Eles não sabem que não vê no vê. Não raras vezes me vi batendo perna pelas ruas simplesmente para não perder a cabeça. Foi um período de gastar a sola do sapato, e a cada canto, cada beco mais sólido ficava. Não houve pausa, houve acúmulo de bagagem.
E é exatamente aqui que o pensamento se afia: evoluir. Continuar.
Aos 60 anos, a caminhada não recomeça; ela se aprofunda. Sigo publicando matérias, mas, desta vez, a partir de uma perspectiva muito mais ampla. Na cobertura política, engajei-me declaradamente — sem meios-termos, porém com total objetividade — em um projeto de transformação. Fiz isso sem me tornar panfletário. E não há qualquer arrependimento. Ponto final. Continuo, sempre na linha de frente, em defesa da civilidade e da igualdade, batendo de frente contra os bárbaros: os bolsonaristas, os racistas e tudo o que representam o retrocesso.
Hoje, entendo mais do que nunca que a política não mora apenas nos gabinetes; ela passa pela cultura, pela diversão, pela mesa do jogo de dominó.
A Epidemia da Solidão Digital
Entre idas e vindas, muitos se apresentaram para integrar esse projeto. Mas a cada atraso, a cada promessa que ficou no caminho, continuei avançando. Cheguei até aqui fazendo tudo sozinho. E continua não sendo fácil. Pois bem, a ideia agora ganhou corpo e evoluiu para um portal. Um espaço onde o leitor — com a mesma alma dos antigos jornais impressos — encontre política, esporte, cultura e cotidiano, tudo em um só endereço.
Vivemos a epidemia da solidão digital. Os algoritmos nos trancaram em cercadinhos: o cinema tem um endereço, a política tem outro. Se você costuma ler sobre política, quase nada sobre outros assuntos ousa aparecer na sua tela. Esse portal nasce para implodir essas bolhas.
O emoji substituiu o abraço; o aplicativo de mensagens engoliu a conversa olho no olho e até a velha ligação de telefone. A maior das tramas modernas foi o isolamento da informação
No decorrer dos próximos dias, vou mostrando as novidades aos poucos — afinal, como a equipe sou eu mesmo, o ritmo é o do trabalho artesanal.
O Cemitério de Minério e a Fúria de Ina
Pesquisando os nomes para batizar este novo espaço — passei por Matraca e outros termos nossos —, cheguei ao destino certo: Boqueirão.
A literatura oficial adora dizer que o Canal do Boqueirão, com suas reentrâncias traiçoeiras, seus bancos de areia e a fúria contra os barcos à vela, atrasou a colonização portuguesa no Maranhão em 100 anos. Na minha leitura, a história é outra: o Boqueirão, na verdade, salvou duas gerações de tupinambás. É um símbolo de resistência da nossa natureza.
E ele continua guardando nossos segredos mais densos. Eu já tinha conhecimento de alguns naufrágios históricos naquelas águas, mas, puxando o fio da pesquisa, deparei-me com um cemitério recente: foram nove grandes navios recheados de minério que foram a pique ali. Em resposta a esse desastre silencioso, o que temos? Apenas comunicados protocolares do governo, da Vale e da Alumar, garantindo friamente que todo o minério foi retirado e que a situação está sob controle. Será mesmo?
E a história do Canal do Boqueirão vai ainda mais fundo. Pesquisando sobre a área, relembro um episódio emblemático: durante a construção do Porto do Itaqui, a morte de dois trabalhadores fez ecoar o aviso dos pais de santo. Eles alertaram que o porto estava sendo erguido exatamente sobre o palácio de cristal da princesa Ina, a mítica filha de Dom Sebastião.
Para os mais antigos, as correntes traiçoeiras e os naufrágios recentes não são apenas acidentes geográficos; são a fúria de Ina. Eis a força indomável que batiza este projeto. Daí o Boqueirão!
O 28 de julho e o duplo negacionismo sobre a adesão do MA
MA: Mesmo com água até o pescoço, continua convencido de que está acima dela.
O Golpe Democrático (parte II): O Jornalismo de fotonovela e a ascensão do crime eleito
A Trincheira contra o Negacionismo
Maturado por mais de dois anos — entre idas e vindas, golpes financeiros e todo tipo de solavanco que leva o sujeito à beira da bancarrota existencial —, resolvi seguir em frente com a criação não apenas de um site, mas de uma verdadeira estação de comunicação e arte.
O portal nasce da urgência de informar e conscientizar a população sobre os pesados desafios que estes novos tempos nos impõem. Atravessamos uma era de negacionismo, de proliferação de notícias falsas e de uma inteligência artificial que, em vez de ser ferramenta de auxílio, é usada para nos substituir — compondo a nossa música e forjando a nossa poesia em um mundo onde parece que pouco importa a verdade do que se diz.
Diante desse cenário, vi muitos se recolherem. Não falo dos tolos de antes, mas dos engajados, dos cientes da luta, que simplesmente jogaram a toalha e passaram a não se importar com mais nada. Mas alto lá. Eu não.
Não me chamem de sonhador. Sou bem consciente do terreno que piso e não vou capitular. Também não quero virar herói ou mártir; a vaidade não tem espaço aqui.
Vou escrever, pensar e escrever de novo, alcançando cada pessoa, uma a uma, se for preciso. Não me importa a dificuldade. Eu não vou soçobrar.
Nessa travessia, resolvi que precisaria de uma grande mobilização para resgatar o leitor fiel na evolução para o Boqueirão. Portanto, o portal Boqueirão não substitui, mas abraça o Blog do Garrone. O blog se mantém vivo e operante, ressaltado agora como fruto de uma produtora de jornalismo maior, firme no propósito ético de defender o Estado Democrático de Direito em todas as suas frentes.
A Descentralização da Memória e da Mídia
A lógica do capital contamina até mesmo a nossa memória e os que tentam reescrever a história do país. Quando o assunto são as revoltas populares, o eixo Sul-Sudeste (com breves concessões a Pernambuco, Bahia e Pará) continua monopolizando o palco.
No caso do Maranhão, a Balaiada e a Revolta de Beckman não são sequer coadjuvantes nos livros escolares responsáveis por formar o imaginário nacional. A própria complexidade do 28 de Julho, a Revolução Acreana, a grande migração cearense e tantas outras lutas continuam convenientemente “esquecidas”.
Nesse sentido, o Boqueirão é uma iniciativa de jornalismo independente, comprometido em dar visibilidade aos invisíveis e aos não derrotados, revelando a realidade que a mídia corporativa deturpa.
Hoje, vemos várias iniciativas pelo país que se dizem alternativas, mas que apenas repetem o velho modelo centralizador. Se na década de 1980 o alto custo de produção concentrava o debate no eixo Rio-São Paulo, não faz o menor sentido aplicar a mesma fórmula limitadora às vésperas de uma internet rápida de quinta geração.
Acompanhando alguns canais ditos de “expressão nacional”, o que se nota é a triste ausência de um projeto real de jornalismo. Muitos se limitam ao desejo de mudar o endereço de destino da verba publicitária do governo federal, mantendo intacta a velha rota aérea Kubitschek-Guarulhos-Galeão, ou, no máximo, Santos Dumont.
O problema maior é que o próprio governo federal se torna fiador dessa exclusão. Basta constatar que os disputados cafés da manhã com o presidente não incluíram a imprensa do Norte e do Nordeste na proporção devida. A centralização continua. E é exatamente contra ela que o Boqueirão levanta âncora.

