
A elite da São Luís colonial orgulhava-se de sua ligação direta com Portugal. Enquanto outras partes do Brasil voltavam seus olhos para o interior do continente, a capital maranhense olhava para o Atlântico, para Lisboa, para os brasões, os títulos e os símbolos de distinção. Dessa herança nasceu um traço que atravessou os séculos: o nariz empinado.
Mas há um equívoco persistente entre os herdeiros dessa tradição. Pensam que manter o nariz elevado impede o afogamento. Não percebem que é justamente por ele que a água começa a entrar.
O ludovicense que ainda hoje se orgulha de medalhas vazias, de sobrenomes ilustres ou da suposta superioridade de uma origem francesa parece mais preocupado com o espelho do que com a memória. De que nos importa, afinal, ter sido ou não fundados por franceses, se continuamos incapazes de reconhecer aqueles que pagaram com o próprio sangue a construção de nossa história?
Negar o papel dos caxienses invisibilizados na luta pela Independência é como confundir os sinais do afogamento. É acreditar que a água escorrendo pelo rosto não alcançará os pulmões. É pensar que a falta de ar se deve apenas ao nariz entupido. É imaginar que a paisagem cada vez mais turva é um problema de visão, e não o anúncio da submersão.
Enquanto o orgulho vazio continua de cabeça erguida, a memória coletiva afunda. E talvez a maior tragédia não seja o afogamento em si, mas a arrogância de quem, mesmo com água até o pescoço, continua convencido de que está acima dela.
