
Por que a criação de um Museu Nacional do Azulejo atropela a vocação do Palacete da Rua Formosa, sepulta a memória da imprensa e expõe a triste capitulação de jornalistas e acadêmicos maranhenses?
Há uma máxima na preservação do patrimônio histórico: a pedra fala, mas é preciso ter coragem para ouvi-la. Em São Luís, no entanto, o poder público prefere ditar o texto antes mesmo de entender o palco, enquanto a sociedade assiste de cabeça baixa. O “Dia C” amanhece com uma decisão que desafia a lógica urbana e revela o abismo moral daqueles que deveriam proteger a nossa historiografia.
A atual gestão da Fundação Municipal de Patrimônio Histórico (FUMPH), sob a batuta de Kátia Bogéa, escolheu o majestoso Palacete da Rua Formosa (Rua Afonso Pena, 46) para abrigar o futuro Museu Nacional do Azulejo. O projeto atrai parcerias internacionais e verbas federais, mas carrega uma ironia gritante que salta aos olhos de quem realmente conhece a cidade: a fachada do Palacete não possui um único azulejo. Trata-se de uma tipologia construtiva neoclássica, de alvenaria limpa. Instalar ali o santuário máximo da cerâmica luso-brasileira é forçar uma identidade cenográfica em um edifício que tem outra alma.
A contradição torna-se escárnio quando olhamos para as entregas da própria gestora. Em 2015, foi inaugurada a magistral restauração da Fábrica Santa Amélia, e o Solar Nazeu Quadros já serviu como palco vibrante para as artes e o patrimônio. Se já possuímos edifícios onde a azulejaria portuguesa é a protagonista natural e autêntica, qual o sentido de preterir e inviabilizar o Palacete da Rua Formosa, o endereço perfeito para abrigar a história viva do jornalismo maranhense?
O Silêncio Conivente e as Migalhas do Poder
A resposta não está apenas na conveniência de proteger a elite — celebrando a estética colonial inofensiva dos barões enquanto se apaga a imprensa que os questionava —, mas na falência de quem deveria contestar esse apagamento. A tragédia dessa obra sustenta-se em um silêncio que oscila, de forma nauseante, entre a conivência e a indiferença.
Onde estão os sindicatos? Onde estão os políticos de oposição? Mais estarrecedor ainda: onde estão os professores, mestres e doutores das universidades públicas do Maranhão? A academia, que deveria ser a primeira a apontar a aberração histórica e arquitetônica desse projeto, cala-se de forma obsequiosa. Aceitam a assepsia da nossa história, talvez anestesiados pela burocracia ou pelo receio de desagradar as instâncias de poder que orbitam a FUMPH e a Prefeitura.

A Traição à Herança de Neiva Moreira e a Cela Voluntária
A capitulação, contudo, atinge seu ápice na própria classe que deveria herdar a trincheira de gigantes como Neiva Moreira. O fundador da Cadernos do Terceiro Mundo, que enfrentou a ditadura, o exílio e denunciou as engrenagens do capital global, jamais aceitaria ver a história da sua profissão varrida para debaixo de um tapete de azulejos.
Mas a coragem de Neiva não encontra eco no presente. Nos bastidores, um grupo de jornalistas tidos como “históricos” na defesa da profissão recebeu este debate de forma antecipada. A expectativa natural era de que, munidos do alerta, liderassem a carga para resgatar o Palacete e exigir a fundação do Museu da Imprensa. A resposta que ecoou de volta, porém, é o testamento da nossa decadência: disseram preferir não comprar a briga, optando por procurar Kátia Bogéa na esperança de conseguir, quem sabe, uma cela no novo prédio.
Trocaram a luta pela dignidade de um museu inteiro — e pela consagração de nomes monumentais do nosso jornalismo — por um cativeiro voluntário concedido pelo Estado.
O golpe democrático contra a nossa memória opera exatamente assim. Ele não precisa de censores fardados, cassetetes ou prisões arbitrárias; basta oferecer uma cela de consolação arquitetônica para que a própria classe jornalística entregue, sem resistência, o palacete e a liberdade que lhe pertenciam por direito e por história. A azulejaria já tem seus templos no Maranhão. O que nos falta, hoje, é a vergonha na cara para defender o nosso legado.




