Quando o assunto é violência contra a mulher, há uma armadilha perigosa em tratar números como se fossem apenas números. Uma queda percentual pode parecer avanço, uma estatística pode sugerir alívio, mas a pergunta ética permanece: quantas mulheres ainda precisam viver com medo para que a sociedade reconheça que falhou?
Sem apuração direta e responsável, qualquer dado isolado corre o risco de enfraquecer o argumento em vez de fortalecê-lo. Por isso, mais importante do que disputar percentuais é afirmar um princípio: em matéria de violência de gênero, 1% não é pouco. 1% é uma vida em risco, uma casa tomada pelo medo, uma mulher obrigada a calcular palavras, rotas e silêncios para continuar existindo.
Na matemática da dignidade humana, 1% de violência é 100% de fracasso coletivo. Essa é a chave do debate. Não basta perguntar se os índices sobem ou caem. É preciso perguntar por que a ameaça ainda é tolerada, por que o medo ainda organiza a vida de tantas mulheres e por que a sociedade só costuma reagir quando a violência já ultrapassou todos os limites.
A violência contra a mulher não começa no golpe, na ameaça formal ou no boletim de ocorrência. Começa antes, no vocabulário cotidiano, nas conversas entre homens, nas piadas naturalizadas, na mesa do bar, na ideia de que a mulher pode ser tratada como conquista, presa ou troféu. Quando jovens repetem expressões como “caça de mulheres”, não estão apenas usando uma frase infeliz: estão reproduzindo uma lógica de posse com linguagem de diversão.
Essa cultura de dominação antecede a agressão física. Quando o homem trata a mulher como bicho na hora do sexo, seja ele pago ou não, é quem perde a humanidade e vira bicho!
O machismo que mais tarde aparece nas estatísticas de feminicídio sobrevive primeiro no silêncio cúmplice da chamada “broderagem”, na naturalização do homem como predador e na tolerância social com pequenas violências verbais e simbólicas.
A Lei Maria da Penha é, nesse cenário, um marco civilizatório. Salvou vidas, abriu caminhos institucionais e tornou visível uma violência que durante muito tempo foi empurrada para dentro de casa e tratada como assunto privado. Mas é preciso dizer com clareza: seu acionamento, na maioria das vezes, ocorre quando o risco já está instalado — depois da humilhação, da ameaça, da agressão, da perseguição ou da tentativa de morte.


A caneta do juiz, a medida protetiva e a sirene da viatura são recursos necessários. Muitas vezes, são a diferença entre a vida e a morte. Mas chegam tarde quando a cultura que produziu o agressor permaneceu intacta. O risco é transformar a Lei Maria da Penha em última trincheira, como se a proteção jurídica, sozinha, pudesse desfazer uma educação machista que ensina homens a confundir amor com posse, ciúme com cuidado e autoridade com violência.
Durante muito tempo, repetiu-se que era preciso ensinar o homem a “respeitar” a mulher. A formulação, embora bem-intencionada, é insuficiente. O respeito condicionado pode virar concessão: respeita-se desde que ela obedeça, desde que não contrarie, desde que se submeta. O centro da mudança precisa ser outro: igualdade.
A igualdade não é favor, não é concessão e não depende da aprovação de quem historicamente ocupou o lugar de poder. Quem compreende a igualdade não exige submissão; divide responsabilidades, afetos, decisões e espaços. Essa compreensão precisa entrar na educação de todos os homens: nas casas, nas escolas, nas famílias, nos grupos de amigos, no trabalho, na política, nas igrejas, nos espaços de lazer e nas conversas cotidianas.
Por isso, educar todos os homens deixou de ser pauta lateral: tornou-se a nova fronteira da luta feminista. Depois de conquistar visibilidade, leis, delegacias especializadas, medidas protetivas e instrumentos de responsabilização, o feminismo precisa agora disputar a formação masculina em todos os ambientes. A prioridade não é suavizar a punição de agressores, mas impedir que a lógica do controle, da posse, da força e da superioridade continue sendo transmitida como se fosse parte natural da masculinidade.
Essa mudança exige educação permanente, não apenas campanhas pontuais em datas simbólicas. Educação para igualdade nas escolas, formação de professores, orientação nas famílias, campanhas públicas, responsabilização social e conversas francas entre homens precisam caminhar juntas. O objetivo é reduzir o risco antes que ele se converta em boletim de ocorrência, medida protetiva, ameaça cumprida ou feminicídio.
Essa educação também precisa alcançar outras formas de ódio. O homem treinado para dominar a mulher é frequentemente o mesmo que se sente autorizado a desprezar o diferente, a ridicularizar minorias, a repetir práticas racistas, xenófobas e intolerantes. Combater o machismo é, portanto, parte de uma agenda mais ampla de reconstrução civilizatória.
Nenhuma sociedade pode se contentar com a ideia de que “melhorou” enquanto uma única mulher ainda precisa viver sob ameaça. A verdadeira vitória será preventiva, não apenas punitiva. Ela virá quando deixarmos de tolerar a linguagem da caça, a cultura da posse e a cumplicidade silenciosa entre homens. Virá quando todos os homens forem chamados a aprender, desde cedo e ao longo da vida, que igualdade não é concessão, mas princípio civilizatório.
Desaprender o machismo é tarefa urgente — e deve ser assumida como agenda central da nova luta feminista. A Lei Maria da Penha precisa continuar forte, defendida e aplicada com rigor. Mas nenhuma sociedade pode se conformar com uma proteção que chega apenas quando o medo já entrou em casa. Talvez a medida mais profunda de uma civilização não esteja apenas nas leis que cria para punir seus agressores, mas na coragem de educar todos os homens para que nenhuma mulher precise viver à espera de proteção. Se 1% de violência ainda existe, a dívida é de todos. E a resposta, para ser verdadeira, precisa começar antes.
A revolução que vai pacificar o nosso estado não começa com mais canetadas ou despachos judiciais; começa na nossa reeducação profunda. Desaprender o machismo e o preconceito nas mesas dos bares, nos grupos das redes sociais e dentro das nossas casas é o único caminho para que deixemos de ser “bichos” na caça e passemos a viver, de forma plena, a verdadeira igualdade.



