Edivaldo Holanda: o silêncio das encostas e a Justiça do legado invisível

Não se trata de canonizar gestão, mas, em nome do serviço público, ressaltar que obras do ex-prefeito evitaram mortes por desabamentos

O inverno amazônico castigou São Luís mais uma vez neste ano. O volume brutal de chuvas testou, como de costume, os limites da nossa infraestrutura, alagando vias e impondo a tradicional rotina de transtornos ao ludovicense. No entanto, em meio ao caos das águas, uma manchete trágica e historicamente repetitiva esteve ausente dos jornais matutinos: não contabilizamos desabamentos fatais. Não houve mortes por soterramento nas áreas de maior risco da capital. E esse silêncio não é obra do acaso, mas de engenharia e vontade política.

Na crônica da administração pública, existe um paradoxo cruel: o sucesso absoluto de uma obra de prevenção é, ironicamente, o seu próprio apagamento. Quando um viaduto é inaugurado, ele se impõe na paisagem e rende votos diários. Mas quando uma contenção de encosta ou um sistema de macrodrenagem funciona com perfeição, absolutamente nada acontece. E, por não acontecer nada, a sociedade tende a esquecer que o problema um dia existiu.

É exatamente contra essa amnésia urbana que precisamos fazer justiça histórica à gestão do ex-prefeito Edivaldo Holanda Júnior.

Antes, uma ressalva vital se faz necessária. Não se trata aqui de canonizar a gestão de Edivaldo Holanda Júnior, que colecionou seus próprios gargalos. A capital maranhense continua padecendo de deficiências crônicas, novos pontos de alagamento desafiam o trânsito e o déficit habitacional segue sendo uma chaga aberta. Tampouco o objetivo deste espaço é analisar a totalidade do seu governo ou estabelecer comparações estéreis com as gestões que o antecederam ou com a que lhe sucedeu no Palácio de La Ravardière. O propósito, aqui, é tão somente fazer justiça factual a um legado específico e pontual.

Quem caminha hoje pela Salina do Sacavém ou desce as ladeiras do Polo Coroadinho debaixo de um temporal não sente mais o pavor que assombrava aquelas famílias há pouco mais de uma década. Antes, qualquer chuva mais densa era sinônimo de sirene, sirene era sinônimo de lama, e lama era sinônimo de morte e desabrigados. Ao decidir enterrar milhões de reais em contenções de alto risco, solo grampeado e muros de arrimo gigantescos, Edivaldo curou a ferida.

O mesmo vale para a Cidade Operária. Onde hoje existe um calçadão urbanizado, corria uma vala a céu aberto, um esgoto monumental que transbordava a cada maré alta e chuva forte, invadindo as casas e destruindo a dignidade de milhares de ludovicenses. A canalização profunda daquela bacia resolveu uma chaga sanitária crônica.

Ao fazermos esse resgate, esbarramos na essência do que deve ser a política com “P” maiúsculo: a coragem de assumir as chamadas “obras que não aparecem”. O político tradicional foge de enterrar tubos e concretar barrancos porque o asfalto eleitoral é muito mais barato e visível. Edivaldo teve o mérito de gastar o seu capital político e financeiro onde o eleitor não pisa todos os dias, mas onde a vida estava em risco iminente.

Não podemos permitir que a solução de um problema apague a sua existência dos livros de história da cidade. Lembrar que a Salina do Sacavém não desaba mais, ou que o canal da Cidade Operária não inunda mais as salas de estar, não é apenas um ato de justiça com quem teve a coragem de executar a obra. É, sobretudo, um ato de exigência cívica.

Lembrar do legado invisível de Edivaldo serve para elevar o sarrafo das administrações atuais e futuras. Serve de exemplo para mostrar que a prefeitura não pode ser apenas uma zeladoria de asfalto e praça, mas um instrumento de preservação da vida. O maior troféu que um gestor pode deixar para a sua cidade não é uma placa de inauguração brilhante, mas a garantia de que, na noite de chuva mais rigorosa do ano, o morador da periferia possa, finalmente, dormir em paz.

 

 

 

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