
A linha de montagem de traumas neurológicos e ortopédicos gerada nas madrugadas de São João no Maranhão consome leitos, insumos e equipes médicas, paralisando as filas de cirurgias planejadas por meses.
A violência no trânsito não faz vítimas apenas no asfalto. Ela pune, de forma cruel e silenciosa, o cidadão que aguarda há meses ou anos por um procedimento médico agendado. Nos meses de junho e julho, os hospitais de urgência e emergência do Maranhão operam sob regime de medicina de guerra, provocando um efeito colateral devastador: a canibalização dos leitos e recursos destinados às cirurgias eletivas.
Uma cirurgia de vesícula, de hérnia, um procedimento ginecológico ou uma correção ortopédica planejada necessitam de três fatores básicos: sala cirúrgica disponível, equipe médica (cirurgião e anestesista) e, em muitos casos, a garantia de um leito de retaguarda na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Quando as madrugadas juninas batem recordes de acidentes, toda essa estrutura é confiscada pela emergência.
Um único paciente com Traumatismo Cranioencefálico (TCE) grave, decorrente do impacto de um capacete de plástico que falhou na hora da queda, mobiliza imediatamente a equipe de neurocirurgia, consome bolsas de sangue e ocupa um leito de UTI por um período médio de 15 a 20 dias. Na manhã seguinte, a cirurgia eletiva daquele paciente que sofria com dores crônicas é cancelada por “falta de leito” ou “prioridade de urgência”.
A sobrecarga é tamanha que as filas reguladas do SUS retrocedem sistematicamente após o período junino. O represamento crônico de procedimentos gera um dano social incalculável, agravando o quadro de saúde de milhares de maranhenses que não sofreram acidentes, mas que se tornam vítimas indiretas da carnificina viária. O Estado, ao não intervir na qualidade da segurança do trânsito, escolhe qual cidadão tem o direito de ser operado.
