Geografia do trauma sobre duas rodas: Quem morre e onde sangra o Maranhão

Não é o Turista que ocupa as estatísticas. É o jovem trabalhador da periferia ou do interior, operando à exaustão nas madrugadas de São João

O segundo episódio da série jornalística A Epidemia que destrói o Maranhão compara números do Turismo com os de acidentes com motocicletas registrados nos meses de junho e julho de 2025 nos estados nordestinos de tradição junina.

Os resultados não deixam dúvidas sobre a responsabilidade do Poder Público (Executivo, Legislativo e Judiciário). O repetido colapso dos hospitais de urgência maranhenses no período junino não é por consequência do aumento do turismo, mas da negligência estrutural.

Se compararmos o Maranhão a gigantes do turismo junino, como Pernambuco, a tragédia ganha contornos de absurdo. O estado vizinho recebe cerca de 2,5 milhões de visitantes — mais que o dobro do influxo maranhense (1,2 milhão). Além disso, Pernambuco possui uma população residente muito maior. Pela lógica, a rede hospitalar pernambucana deveria registrar o dobro ou o triplo de internações.

Mas não é o que acontece. Enquanto Pernambuco, com o dobro de turistas e mais rodovias, registra cerca de 1.450 vítimas graves no período, o Maranhão, com metade dos visitantes, produz assustadoras 1.102 internações.

O que essa desproporção matemática escancara?

Mostra que a letalidade viária no Maranhão é impulsionada por um caldeirão letal exclusivo nosso. Não estamos colapsando porque recebemos muitos visitantes; estamos colapsando porque temos uma frota composta em 60% por motocicletas, porque fechamos os olhos para os mototaxistas e motoristas de aplicativo operando à exaustão nas madrugadas, e porque permitimos que a população trafegue usando “capacetes de plástico” que transformam quedas rotineiras em neurocirurgias milionárias.

O Maranhão consegue a triste proeza de matar e mutilar quase o mesmo tanto que estados que movimentam o dobro de pessoas. A culpa não é da festa, nem de quem vem de fora. A culpa é de um Estado que se recusa a fiscalizar e proteger quem vive aqui dentro.

O perfil das vítimas de acidentes de moto no Maranhão durante o São João expõe um recorte socioeconômico nítido. Não são os turistas que ocupam as estatísticas. O acidentado padrão é o jovem trabalhador da periferia ou do interior, operando veículos em condições precárias e sob forte desgaste físico.

O monitoramento dos resgates realizados pelo SAMU e dos boletins da Polícia Rodoviária Federal (PRF) aponta que o pico da letalidade ocorre invariavelmente nas madrugadas, entre as 23h e as 05h. É o período em que a mistura de embriaguez, cansaço extremo dos profissionais de entrega por aplicativo e a escuridão das vias públicas criam o cenário perfeito para colisões de alta energia.

O percurso do sangue no estado possui rotas bem definidas. Na Região Metropolitana de São Luís, os acidentes se concentram nas artérias que ligam os grandes arraiais aos bairros.

  • MA-201 (Estrada de Ribamar) e MA-202 (Estrada da Maioba): Corredores de tráfego intenso, marcados pela falta de sinalização e pela ausência de fiscalização efetiva nas madrugadas.
  • BR-135: O trecho entre o Estreito dos Mosquitos e o Campo de Perizes registra as colisões frontais mais violentas, geralmente causadas por ultrapassagens arriscadas de motos.
  • Avenidas Jerônimo de Albuquerque e Via Expressa: Líderes em colisões contra postes e canteiros centrais causadas por perda de controle em alta velocidade.

No interior do estado, onde a fiscalização municipal é praticamente inexistente e o uso do capacete é negligenciado, quatro polos urbanos concentram a maior gravidade dos traumas e exportam pacientes para as UTIs:

  • Imperatriz: O trânsito saturado da Região Tocantina e o uso massivo do transporte por moto geram altos índices de invalidez.
  • Caxias e Timon: A forte integração com redes festivas vizinhas eleva o risco nas rodovias de acesso (BR-316).
  • Santa Inês: O entroncamento rodoferroviário atrai o fluxo de dezenas de pequenos municípios, multiplicando acidentes nos perímetros urbanos.
  • Balsas: O polo do agronegócio registra um crescimento acelerado da frota e colisões rurais violentas durante as festividades regionais.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Geografia do trauma sobre duas rodas: Quem morre e onde sangra o Maranhão

Esmenia, omissão como método, a herança excludente de Braide e o abandono da tradição e da população da Liberdade

O ralo do SUS, a fragilidade dos capacetes e o alerta para as madrugadas juninas

O DIA C: A Contradição do Azulejo, o Silêncio da Academia e o Balcão de Negócios da Nossa Memória

23 anos de teimosia: A Vida É uma Festa completa quase 1/4 de século sem pedir benção ou financiamento oficial

O Golpe Democrático (parte II): O Jornalismo de fotonovela e a ascensão do crime eleito

"Quando o mal triunfa o bem se esconde; quando o bem aparece, o mal fica de tocaia"

Wisława Szymborska