O 28 consagra rendição de uma elite assustada e apaga sangue caxiense que garantiu independência do país em 31 julho de 1823

A contradição gritante que o "feriadão" tenta esconder com o mito de que "não houve derramamento de sangue" é que o Maranhão não estava livre no dia 28. A independência sem derramamento de sangue foi um privilégio exclusivo e cínico dos salões de São Luís. A consolidação do território brasileiro só se deu, de fato, através da guerra brutal na princesa do sertão

 

A ironia do apagamento histórico brasileiro é brutal e revela um ciclo perverso de conveniências narrativas. Enquanto os calendários nacionais ditados pelo Sudeste apagam o 28 de julho, o próprio Estado do Maranhão faz questão de apagar o 31 de julho. O que deveria ser um momento de reflexão cívica sobre as cicatrizes da nossa formação foi esvaziado de sua potência política e transformado pelo sistema em um mero “feriadão” anestésico, planejado para que a população não use o dia para refletir sobre o seu passado. Somos vítimas de uma história pela metade e, muitas vezes, a própria imprensa e os livros escolares locais apenas repetem o que não sabem, aplicando com perfeição a mesma amnésia que lhes é imposta.

 Para entender essa distorção, é preciso primeiro desconstruir o “heliocentrismo histórico” do 7 de setembro. O Brasil foi ensinado a aceitar que o Rio de Janeiro e São Paulo são o Sol, e o resto das províncias são apenas planetas forçados a orbitar a narrativa oficial de emancipação pacífica. A verdade, porém, é que o grito do Ipiranga foi um evento isolado no Centro-Sul que não significou absolutamente nada para o Maranhão em 1822.

A razão para isso era estritamente geográfica e econômica. Os fortes ventos alísios e as impetuosas correntes marítimas da região das Guianas criavam uma barreira intransponível que impedia a navegação fluida de São Luís em direção ao Sul. Era infinitamente mais rápido, seguro e barato navegar direto para Lisboa. Éramos uma província atlântica, um “país-arquipélago”, cuja economia agroexportadora era umbilicalmente ligada à Metrópole..

O Heliocentrismo Estadual e o Blefe do Pirata

                Se reclamamos com veemência do Sudeste, reproduzimos o mesmo erro em casa ao tratarmos o 28 de julho como o fim da história. O Maranhão age como se a capital São Luís fosse o Sol, apagando o sangue derramado no interior. O feriado estadual oficial celebra a assinatura de um papel na Praia Grande, a rendição de uma elite assustada e a aceitação pacífica de um saque.

Adesão maranhense foi forçada por um mercenário escocês, Lord Cochrane, o “Lobo do Mar”, contratado a peso de ouro por Dom Pedro I. Sabendo da força da capital, ele usou o terror psicológico: chegou com um único navio, bloqueou o porto e blefou afirmando que uma imensa e fictícia esquadra imperial estava a caminho para arrasar a cidade. Encurralada, a Junta de Governo cedeu no dia 28 de julho. O preço da “independência” veio logo a seguir: alegando o “direito de presa”, Cochrane e seus marinheiros promoveram um confisco institucionalizado, saqueando os cofres públicos e roubando navios e propriedades, agindo muito mais como piratas do que como libertadores.

É uma questão de honestidade intelectual e rigor histórico admitir que, muitas vezes, as verdades mais duras vêm de fontes que a polarização tenta silenciar. A real dimensão da violência e da pilhagem promovida por Cochrane foi detalhada, por exemplo, no artigo “A data certa Contra o pirata”, publicado em 2022 pelo ex-presidente José Sarney — provando que o resgate dos fatos deve transcender divergências e sectarismos políticos.

                                                                                                 

 

                                                                          Caxias, 31 de Julho: O Verdadeiro Sangue da Independência

A contradição gritante que o “feriadão” tenta esconder com o mito de que “não houve derramamento de sangue” é que o Maranhão não estava livre no dia 28. A independência sem derramamento de sangue foi um privilégio exclusivo e cínico dos gabinetes de São Luís. A consolidação do território brasileiro só se deu, de fato, através da guerra brutal no interior.

Sob o comando do Major português João José da Cunha Fidié, as tropas leais à Coroa se fortificaram no município de Caxias, o coração econômico do estado na época. O Cerco de Caxias opôs o exército de Portugal a milícias locais, vaqueiros e reforços vindos do Piauí e Ceará, resultando em combates violentos, fome e doenças por meses. As forças esgotadas de Fidié só capitularam no dia 31 de julho de 1823. Caxias foi a última povoação a aderir à causa, marcando o colapso final da resistência. O Brasil só ficou realmente unido quando Caxias caiu.. A narrativa, desenhada no conforto dos gabinetes de São Luís, transforma a resistência armada em uma nota de rodapé e consagra a rendição extorquida da capital como o grande marco heroico. Quando se trata de manipular o calendário para anestesiar o processo social, a vítima reproduz os mesmos métodos de seu carrasco.

                                                                                                          A Falsa Paz e o Grito das Revoltas Populares

O processo de independência do Brasil foi uma longa guerra civil disfarçada de transição pacífica. Quando o povo percebeu que a independência consistia apenas em trocar o jugo de Lisboa pelo autoritarismo do Rio de Janeiro, o país explodiu. No Grão-Pará, a Cabanagem (1835–1840) levou indígenas, negros e ribeirinhos a tomarem o poder, resultando no extermínio de 30% da população pela repressão imperial.

No Maranhão, a falsa paz ruiu com a Balaiada (1838–1841). Vaqueiros, artesãos como Manuel Balaio e escravizados liderados por Negro Cosme se insurgiram contra a opressão dos grandes proprietários, chegando a tomar, novamente, a cidade de Caxias. Eles provaram que o povo nunca aceitou passivamente as decisões impostas pelos gabinetes.

A Lição de 1823 para as Eleições de 2026

As datas cívicas importam porque a história sempre rima. O feriado da adesão cai exatamente durante a janela das convenções partidárias (de 20 de julho a 5 de agosto) para as Eleições de 2026. Os paralelos são assustadores: assim como a elite da Junta Governativa de 1823 decidiu o destino do Maranhão em salas fechadas sem ouvir a população, hoje os velhos caciques políticos trancam-se em gabinetes com ar-condicionado para definir o nosso futuro.

A grande armadilha do sistema eleitoral contemporâneo é forçar o eleitor a focar exclusivamente na disputa para o cargo de Governador, personalizando a política em um único “salvador da pátria”. No entanto, a verdadeira lição de representatividade é que o voto mais importante e estratégico é para o Parlamento (deputados estaduais e federais).

O governador administra o orçamento, mas é a Assembleia Legislativa e a Câmara dos Deputados que foram desenhadas para atuar como o espelho plural do povo. É ali que a sociedade civil deve se organizar como segmento social — dando voz a professores, trabalhadores rurais, profissionais da saúde e comunidades tradicionais. Se a classe trabalhadora não ocupar o legislativo com pessoas que vivam a sua realidade, o governador eleito, por mais comprometido que seja com as classes populares,  continuará governando para as mesmas elites de sempre, transformando o Palácio dos Leões em um mero balcão de negócios.

Quem não conhece as cicatrizes do próprio passado, aceita qualquer promessa de futuro. Neste feriado anestésico, a maior resistência contra o apagamento histórico é entender que a verdadeira emancipação — seja no século XIX ou em 2026 — não vem de concessões dos gabinetes, mas da organização coletiva do povo.

 

 

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