O Xadrez político de 2026, a batalha pelo Senado e o futuro do STF

Escolha dos dois candidatos ao Senado pode selar aliança Brandão/Lula para evitar avanço bolsonarista

                   A disputa pelas duas vagas ao Senado no Maranhão já movimenta intensamente os bastidores. Na órbita governista, embora a chapa de Orleans tenha dado foco à corrida, Pedro Lucas e Weverton Rocha despontam em plena campanha para assegurar esses espaços. É natural que os pré-candidatos se mobilizem desde já, e não cabe, neste momento, o candidato ao governo escolher este ou aquele nome, ainda que preferências já tenham sido sinalizadas no passado — como já ocorreu com Werverton Rocha. Hoje, no entanto, é Pedro Lucas quem surge com força no tabuleiro.

Mas ainda há muita água para rolar. A principal variável externa nessa articulação é o presidente Lula, que tem o objetivo claro de formar uma grande e sólida bancada no Senado Federal. Para isso, sua candidata de confiança é Eliziane Gama, que já deu provas concretas de alinhamento. Do outro lado, Weverton Rocha precisará oferecer muito mais garantias, especialmente diante do papel que assumiu na reeleição de Davi Alcolumbre, onde acabou fazendo as vezes dos bolsonaristas.

Pedro Lucas, por sua vez, carrega o histórico de um bolsonarista mais discreto, sem grandes arroubos. Politicamente habilidoso, soube acenar ao Palácio dos Leões, sendo o único a proferir um discurso elogiando abertamente o carnaval promovido pelo governo Brandão.

O jogo é duro e exige precisão tática. O grande desafio do bloco é evitar que a aliança entre Braide, Fufuca e Lahésio se consolide a ponto de garantir uma vaga ao Senado. Lahésio representa o bolsonarismo raiz, arrastando consigo um eleitorado cativo e caracterizado pelo mesmo calibre de ignorância, o que o torna um adversário perigoso.

A análise fria desse cenário evidencia que o compromisso central não é ser opositor ou inimigo de grupos e candidaturas políticas, mas a defesa intransigente do Estado Democrático de Direito. Este modelo constitucional encontra-se sob constante ameaça pela extrema-direita, cuja estratégia clara é desarmonizar os Três Poderes da República em uma tentativa aberta de se tornarem os chefes absolutos da nação. Depois de submeterem o Executivo a embates incessantes, deixando-o praticamente refém de chantagens orçamentárias e políticas, a meta do radicalismo agora é subjugar o Poder Judiciário. É uma questão de utilidade pública expor essa engrenagem.

Toda essa complexa teia de articulações, onde lançar-se pré-candidato garante um lugar na mesa de negociação, está diretamente conectada à formação do Senado, que terá um papel decisivo no futuro da Suprema Corte do país.

O Senado e o STF: A Mobilização em Curso e a Desacralização do Supremo

O interesse do Planalto em construir uma maioria sólida no Senado vai muito além de aprovar projetos de governo. Há uma mobilização silenciosa e potente em curso no Congresso para conter as futuras indicações presidenciais ao Supremo Tribunal Federal (STF).

   Em uma Corte composta por 11 cadeiras, o presidente Lula já indicou dois ministros neste atual mandato (Cristiano Zanin e Flávio Dino). O grande nó político é que ainda faltam quatro indicações no horizonte, o que significa que Lula poderá ter indicado seis ministros no total — formando, na prática, a maioria absoluta do tribunal.

   Ao longo de sua trajetória histórica no Executivo, o presidente somou 11 indicações ao STF. Nos mandatos anteriores, os nomes escolhidos foram Cezar Peluso, Carlos Ayres Britto, Joaquim Barbosa, Eros Grau, Ricardo Lewandowski e Cármen Lúcia (no primeiro período, entre 2003 e 2006); seguidos por Carlos Alberto Menezes Direito e Dias Toffoli (no segundo período, de 2007 a 2010). Agora, as movimentações de bastidores miram as vagas remanescentes e as regras do jogo.

  Essa conta das quatro vagas restantes do mandato vigente inclui:

  • Jorge Messias: Indicado em 2026 para substituir o ministro Luís Roberto Barroso (que antecipou sua aposentadoria).
  • Luiz Fux: Aposentadoria compulsória prevista para abril de 2028.
  • Cármen Lúcia: Aposentadoria compulsória prevista para abril de 2029.
  • Gilmar Mendes: Completa a idade limite em dezembro de 2030.

  Para evitar que essas indicações se concretizem e consolidem o controle do Planalto sobre o STF, embora fatos mostrem o contrário, como no caso da operação da PF contra o líder Jacques Wagner, alas do Congresso estudam manobras institucionais pesadas. Discute-se desde o aumento da idade compulsória de aposentadoria dos atuais ministros até um verdadeiro golpe burocrático: mudar a regra constitucional e transferir a prerrogativa de indicação para o próprio Congresso Nacional, transformando de vez a Justiça em um poder estritamente político.

  O que quase ninguém quer assumir de fato é a responsabilidade constitucional de sabatinar com rigor os indicados no sentido de aferir o notório saber jurídico. Ninguém quer. Esse alerta da nova postura do Legislativo foi aceso de forma contundente quando o Senado impôs uma derrota histórica ao governo e rejeitou a indicação de Jorge Messias para a vaga de Barroso. Foi a demonstração de força de um Senado que deixou de ser mero homologador, o que torna a eleição das duas vagas maranhenses em 2026 uma peça central de sobrevivência neste xadrez nacional.

A Escandalosa Campanha de Gabinete

  Paralelamente a esse jogo de xadrez institucional, o processo de escolha dos ministros do STF escancara uma mutação severa na própria liturgia do cargo. O rito de indicação, que outrora guardava um caráter de discreta consulta jurídica, transformou-se em uma ostensiva campanha eleitoral. O que se assiste hoje é uma inversão completa da lógica jurídica: os indicados ou fortes postulantes à vaga saem a campo em plena campanha, peregrinando de gabinete em gabinete para visitar senadores e pedir apoio.

 O absurdo se aprofunda a grande mídia chancela o desvio de finalidade ao cobrir o processo exatamente como cobre uma eleição partidária comercial. Onde já se viu juiz fazer campanha para julgar? Essa busca por apoio político compromete de saída a necessária independência do magistrado antes mesmo de ele vestir a toga.

O Veredito de uma Opinião Pública Desinformada

  Esse ambiente hiperpolitizado alimenta pesquisas de opinião recentes que apontam que cerca de 60% da população desaprova a atuação do STF. O dado, contudo, exige uma pergunta analítica fundamental: essa desaprovação se baseia em quê?

  A realidade é que a esmagadora maioria da população não acompanha as sessões plenárias, desconhece por completo os ritos e as ações da Justiça e não compreende o papel constitucional da Corte. A desaprovação massiva não nasce do escrutínio técnico das decisões colegiadas, mas sim de uma contínua e sistemática campanha de difamação promovida pelo ecossistema bolsonarista.

  Ao transformar o debate técnico sobre a Constituição em um embate ideológico e de desinformação, distorce-se a percepção pública. O cidadão comum passa a rejeitar a instituição não pelo que ela decide à luz do Direito, mas pelo que dizem dela nas redes sociais. O resultado é um tribunal acuado por uma opinião pública cega, operando sob a pressão de um Congresso que prefere a chantagem burocrática ao cumprimento rigoroso de seu papel fiscalizador.

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