Ministros do STF alertam para os perigos da desprofissionalização e reabrem debate sobre diploma de jornalismo

Proliferação de produtores de conteúdos que fazem uso das prerrogativas do jornalismo para arrogar direitos leva , quase 20 anos depois, STF debater exigência de diploma para o exercício da profissão
Alexandre de Moraes e Flávio Dino

A verdadeira liberdade de imprensa é uma das colunas mais importantes de um regime democrático, mas ela não existe de forma plena sem o contrapeso da responsabilidade. Quando o STF analisou o direito de resposta frente a uma reportagem com erros de apuração graves, o tribunal resgatou uma máxima fundamental: o cidadão tem o direito constitucional ao acesso à informação fidedigna, e não à desinformação.

Em 2009, o Supremo Tribunal Federal tomou uma decisão histórica ao derrubar a obrigatoriedade do diploma de jornalismo, sob o argumento de que a livre difusão de ideias não poderia ser condicionada a uma licença estatal. Decorridos quase vinte anos, o cenário das comunicações no Brasil mudou drasticamente, e o otimismo daquela desregulamentação hoje confronta uma realidade preocupante: a ausência de requisitos técnicos e éticos transformou o ecossistema de informação em um terreno fértil para a difamação profissionalizada e a desinformação.

A discussão na Primeira Turma do STF acendeu um alerta fundamental sobre as consequências práticas de equiparar qualquer produtor de conteúdo de rede social a um jornalista profissional. Sob o pretexto de estarem resguardados pelas garantias constitucionais da imprensa — como o valioso sigilo da fonte —, indivíduos utilizam blogs e páginas pessoais para atacar reputações de forma impune, sem qualquer compromisso com a verdade ou com as regras básicas de apuração. O sigilo da fonte existe para proteger o livre exercício da profissão jornalística e o interesse público, e não para acobertar crimes ou blindar difamadores sistemáticos.

O diagnóstico mais alarmante compartilhado pelos ministros aponta para a segurança pública: a completa desregulamentação abriu flancos para que o crime organizado se infiltre na atividade de comunicação. Com a facilidade de criação de portais e blogs sem necessidade de habilitação técnica, facções como o PCC e o Comando Vermelho encontram um caminho livre para financiar redes de desinformação e selecionar “blogueiros” que atuam como porta-vozes do crime, blindados por garantias constitucionais distorcidas. Diante desse cenário de deterioração do debate democrático, a reflexão sobre o restabelecimento do diploma ou de um marco regulatório robusto — aliado a regras claras de transição para quem já atua seriamente — não é um ataque à liberdade, mas sim uma defesa essencial da imprensa profissional e da própria sobrevivência das instituições.

O Histórico do Diploma de Jornalismo sem diploma

  • Origem da Exigência: A obrigatoriedade de diploma de nível superior para o exercício da profissão de jornalista foi estabelecida pelo Decreto-Lei nº 972 de 1969, assinado pela junta militar que governava o Brasil sob o amparo do Ato Institucional nº 5 (AI-5). Historiadores e juristas apontam que a norma possuía fins políticos de cercear vozes de oposição, artistas e intelectuais nos meios de comunicação.
  • A Queda em 2009: No julgamento do Recurso Extraordinário (RE) 511.961 em 17 de junho de 2009, o Plenário do STF decidiu por 8 votos a 1 que o decreto de 1969 era inconstitucional e não havia sido recepcionado pela Carta de 1988. O relator, ministro Gilmar Mendes, argumentou que o jornalismo e a liberdade de expressão são indissociáveis por natureza e que o Estado não pode criar barreiras para a divulgação de informações. O ministro Marco Aurélio foi o único voto divergente, defendendo a manutenção da exigência em prol da segurança jurídica e da qualificação técnica do profissional para a sociedade.

O Caso do Agravo Regimental no Recurso Extraordinário (AR 1.581.926)

  • Ação: Discussão sobre o direito de resposta ajuizado pela Clínica da Gávia contra a TV Globo e o portal G1.
  • Fato Gerador: Em maio de 2020, os veículos jornalísticos publicaram reportagem que continha um erro crasso de apuração técnica: interpretaram equivocadamente o termo “leucorreia” em um laudo clínico como “lesão por estupro”, imputando falsamente a prática de crime à clínica médica.
  • A Decisão: A Primeira Turma manteve a decisão de segunda instância que ordenou a concessão do direito de resposta, rejeitando o recurso da emissora de televisão por preclusão processual e impossibilidade de revolver provas no STF. O debate sobre a desregulamentação da profissão de jornalista surgiu neste julgamento de forma incidental (obiter dictum), quando os ministros Flávio Dino e Alexandre de Moraes pontuaram que o caso demonstra a gravidade da desinformação e a urgência de rediscutir a responsabilidade civil da imprensa e as regras profissionais da categoria.

 

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