Existe um triunfo formal que, de tão impecável, revela-se como uma prisão. Na literatura brasileira, a indiscutível grandeza acadêmica de Josué Montello em *Os Tambores de São Luís* ergue-se como uma catedral clássica. Cada capítulo, cada descrição da São Luís colonial encaixa-se como as engrenagens perfeitas de um relógio de ouro. É a narrativa reta em seu ápice. No entanto, é precisamente sob o manto dessa perfeição estrutural que se opera um dos atos mais sofisticados de apagamento e domesticação da dor popular.
O romance gira em torno de Damião, um ex-escravo que carrega sobre os ombros a tragédia de seu povo. No plano documental, o sofrimento do negro está lá, exposto em detalhes históricos. Mas observemos o inteiro teor do personagem: como ele raciocina? Como ele ama? Como ele expressa a sua revolta contra as correntes?
Damião expressa seu grito de liberdade através da métrica cartesiana, da prosa elegante, limpa e perfeitamente equilibrada do colonizador europeu do século XIX. Montello deu a ele a pele do escravo, mas confiscou-lhe a mente, enquadrando o seu pensamento no nexo clássico e na erudição branca letrada dos salões nobres. O Damião que empunha os tambores raciocina com o cérebro do mestre que o açoitou.
Trata-se do império do “entendimento imediato” elevado à categoria de arte. Para que a rebelião do negro fosse digerível e consumível pelas “madames” e pela elite letrada da época, seu grito precisava ser higienizado, traduzido para a gramática clássica da submissão intelectual. A dor real, que por natureza é fraturada, sincopada, barroca e não-linear, foi domesticada pela estética clássica da linha reta. O nexo imposto por Montello amorteceu o impacto do tambor.
A escravidão cultural que aprisiona a linguagem de Damião é a mesma que, hoje, rege os gabinetes políticos que tentam enquadrar a dor das mulheres e a humilhação do trabalhador de base em planilhas de marketing e pautas corporativas importadas. Querem o “entendimento limpo” que não choca, que cabe em relatórios e que não desorganiza as estruturas do poder.
Romper com essa ditadura do nexo cartesiano é o primeiro passo da nossa emancipação civilizatória. O diálogo verdadeiro não veste fraque nem pede licença aos manuais acadêmicos. Ele se assenta no chão batido, com a poeira das contradições humanas e com a linguagem viva da calçada. Se quisermos pacificar o Maranhão e libertar o nosso povo de suas amarras invisíveis, precisamos ter a coragem de ouvir o tambor em sua batida real, sincopada e livre — recusando, de uma vez por todas, a métrica confortável que os salões coloniais criaram para nos domesticar.
