
Se o sistema eleitoral brasileiro é um simulacro de democracia, a mídia tradicional é a sua diretora de cena. O papel da imprensa na manutenção desse status quo não é apenas omisso; ele é ativo. O jornalismo político, que deveria ser o cão de guarda da sociedade, entregou os dentes e agora limita-se a latir sob comando, transformando o debate público em uma espécie de fotonovelismo de baixo nível.
O debate como coreografia
Observe a coreografia de um debate televisivo. O apresentador anuncia com pompa: “Vamos ouvir agora a pergunta do jornalista fulano de tal”. O jornalista entra no ar, faz uma pergunta protocolar, muitas vezes dócil ou excessivamente técnica, e o candidato responde o que bem entende. Ele pode mentir, pode fugir do tema, pode desfiar um rosário de promessas impossíveis.
E o que acontece em seguida? Nada. O jornalista não replica, não treplica, não aponta a mentira e não diz mais nada. Ele é usado como “escada” para o monólogo do político. Esse ritual não serve para informar o eleitor, mas para conferir uma falsa aura de legitimidade ao candidato. A mídia finge que questiona, o político finge que responde, e o povo assiste a um teatro onde a verdade é a única que não foi convidada.
Cortina de intriga
A cobertura política cotidiana no Maranhão e no Brasil desceu ao nível da fofoca de corredor. É o que chamo de fotonovelismo político. A imprensa se ocupa exclusivamente da “intriga da semana”: quem rompeu com quem, qual secretário está na corda bamba, quem jantou com qual padrinho político.
Essa fixação na intriga é estratégica: ela ocupa todo o espaço da pauta, impedindo que o cidadão entenda as engrenagens reais do Estado. Enquanto se discute o “clima” no Palácio dos Leões ou na Prefeitura, os contratos bilionários são assinados e as leis que retiram direitos são aprovadas no silêncio das comissões. A intriga é a cortina de fumaça que esconde a pilhagem.
Essa degradação do debate e da fiscalização nos levou a uma realidade sombria. Se em décadas passadas o crime organizado e os setores marginalizados da ética precisavam financiar “o seu parlamentar” para garantir influência, hoje o sistema está tão desprotegido que o próprio “bandido” se elege.
Sem o crivo de um jornalismo que investiga o passado, sem o debate que expõe as contradições e com um povo anestesiado pelo fotonovelismo, as facções e o crime do colarinho branco dispensaram intermediários. Eles ocupam as cadeiras, detêm a imunidade e legislam em causa própria. A baixa representatividade descrita na matéria anterior é a porta aberta para que o poder público se torne o esconderijo perfeito.

