
Zé Maria Medeiros: a trajetória de quem não se rende aos projetos incentivados – esse “mal”que transformou a criação em uma espécie de caça-níquel de editais
Há uma São Luís que pulsa à revelia dos gabinetes, dos artistas incentivados e dos cidadãos de bem. Que o marketing institucional não consegue fotografar e que a política tradicional, de qualquer matiz, prefere ignorar. É a cidade que se encontra há 23 anos no Beco dos Catraieiros, sob o nome de um manifesto vivo: o projeto “A Vida é uma Festa”. Ali, a política não é uma promessa de campanha que some após a apuração; é uma prática cotidiana que incomoda tanto o burocrata palaciano quanto aquele militante que Marilena Chauí definiu como o “alienado participante” — aquele que, preso à burocracia do diretório, esqueceu-se de como se pisa no chão da rua.
No centro dessa engrenagem de resistência está Zé Maria Medeiros, o militante comunista que assustou meio-mundo ao trocar a forma de sua ação política. Há 33 anos passados colocou um sax na boca e se juntou a Sandra Cordeiro, Silvana Cartagenes, Gilson César e Beto Bittencourt. Nascia a Cia. Circense de Teatro de Bonecos Juntos, eles criaram um modo de vida onde a estética está fundida com a ética
A trajetória de Medeiros e da Circense revela que o sistema só aplaude a cultura que ele consegue domesticar e colocar no cabresto eleitoral. Sandra Cordeiro Silvana cartagenes Gilson César e Beto Bittencourt.
A Ferocidade do Projeto vs. A Burocracia do Medo
O estudo das pesquisadoras Cynthia Carvalho Martins e Camila Do Valle— “Somos Todos Artistas” — não deixa margem para dúvida: o projeto “A Vida é uma Festa” assusta porque é autônomo. Elas identificam no projeto uma “autonomia” que o mercado e o Estado detestam. Enquanto a arte contemporânea se rendeu aos projetos incentivados — esse “mal” que transformou a criação em uma espécie de caça-níquel de editais —, o “A Vida é uma Festa” completa dia 2q1 de maio quase um quarto de século sem pedir benção ou financiamento oficial. A pesquisa revela que a identidade desse coletivo é construída na negação. Eles negam a domesticidade das políticas institucionais. O projeto congrega o Tambor da Lua, poesia, música e gente que vai e vem., Numa espécie de circulador de fulô. Ao diminuir, o público parece aumentar. O sucesso não é a multidão, mas o prazer que nos dar. Militante histórico, reconstrutor da UNE, fundador de diretórios acadêmicos e da Sociedade Maranhense de Defesa de Direitos Humanos, Zé Maria é o exemplo vivo de que o compromisso político não é um “concurso público” com data de validade. No entanto, o Estado que ele ajudou a democratizar só o enxerga hoje através da lente da fiscalização. Como ele mesmo define: “O Estado acha que a paz é uma rua sem gente… está impondo o cinza pra todo lado. Isso não é segurança, é tristeza”.
A Festa como Trincheira
O projeto “A Vida é uma Festa” é a prova de que a representação real não precisa de crachá. Enquanto o “fotonovelismo” político se ocupa de jantares e intrigas, a vida real acontece nas quintas-feiras do Centro Histórico. Invisibilizar o ativista e o artista que não cabem nas cartilhas oficiais é a estratégia do “cinza” institucional. Mas, como dizia a quilombola Dona Nice: “Cantar e dançar também pode ser uma forma de luta”. No escuro do Beco, o tambor de Zé Maria e de seus companheiros continua sendo a luz mais forte de São Luís.


