Depois do debate da Globo, o eleitor de Flávio Bolsonaro agora sabe a baixeza da criatura em que está depositando o voto

A cobertura política tradicional adora derramar lágrimas de crocodilo sobre o “baixo nível” dos debates. Reclamam da grosseria, lamentam a escassez de propostas e imploram por discussões técnicas baseadas em metas fiscais e gráficos coloridos. Quanta ilusão tecnocrata

O confronto direto entre Lula e a trupe bolsonarista, personificada ali pela figura abjeta de Flávio Bolsonaro, prestou um serviço inestimável ao país — não pela elevação intelectual, mas pelo choque de realidade.A escassas 48 horas da eleição, o que se viu não foi um tropeço de retórica, mas o retrato sem verniz de um sujeito vil. Em vez de se esconder atrás dos costumeiros papéis ou do discurso ensaiado por marqueteiros, Flávio Bolsonaro fez questão de esfregar sua baixeza na cara do público em rede nacional. Recorreu ao ataque rasteiro de chamar Lula de “nove dedos” e teve o desplante repugnante de tripudiar sobre os brasileiros mortos por asfixia em Manaus durante a Covid.

 

Não há espaço para complacência ou ironia sutil diante de uma barbaridade dessas. Atacar Lula pela mutilação física não atinge apenas o adversário político: cospe diretamente no rosto de toda a classe trabalhadora brasileira, homens e mulheres que perdem dedos, mãos e vidas nas engrenagens e fábricas sem segurança deste país. Rir e fazer chacota da agonia de pessoas asfixiadas em leitos de hospital revela uma deformidade de caráter que vai muito além de qualquer divergência partidária; é pura perversidade moral.

 

Planos de governo cheios de tecnicismos e promessas ocas perdem qualquer relevância perto desse tipo de espetáculo grotesco. Flávio Bolsonaro se encarregou, ele próprio e ao vivo, de liquidar qualquer dúvida sobre a podridão que representa.

 

Quem ainda insiste em votar e apoiar esse tipo de gente não pode mais alegar ignorância ou pretexto programático. A transmissão em rede nacional expôs a criatura por inteiro: resta ao eleitor assumir a vergonha de endossar, deliberadamente, a mais desumana e desprezível escória da política.

 

Sabe perfeitamente, sem sombra de dúvidas, a baixeza da criatura em que está depositando o voto.

https://youtu.be/f62pfk2eHCA?si=bcjnQDp66WN0LZbE

 

 

Conforme detalhado por Lula durante a transmissão ao vivo, a perda do dedo mínimo da mão esquerda ocorreu quando ele tinha apenas 17 anos de idade. Na época, atuando como prensa-operador em uma metalúrgica no turno da noite, o jovem teve o membro esmagado por uma prensa defeituosa. O candidato destacou que cumpria madrugadas exaustivas nas fábricas ainda adolescente porque a realidade financeira da família não deixava alternativa: “ou trabalhava ou não comia”.

A mutilação de Lula reflete o histórico de precarização e a altíssima taxa de acidentes de trabalho que marcaram o parque industrial nacional na segunda metade do século XX. Ao rechaçar o termo pejorativo e exigir retratação em rede nacional, Lula ressaltou que usar a marca do suor e do acidente fabril como insulto é uma demonstração de insensibilidade e desprezo de uma elite que nunca soube o que é assinar uma carteira de trabalho.

No palco do debate, a tentativa descarada de Flávio Bolsonaro de reescrever a história recente do país tropeçou frontalmente na crueza dos fatos. Ao ser confrontado pela acusação de que seu pai zombou de brasileiros morrendo sufocados na pandemia, Flávio sacou do bolso o surrado carimbo de “fake news”. Com insólita cara de pau, tentou convencer a audiência de que o ex-presidente da República teria dado apenas um ingênuo “suspiro” ao criticar protocolos médicos.

A tentativa do herdeiro de dourar a pílula do patriarca atinge o pico da insolência política ao tentar transformar em “desabafo respiratório” o que foi um deboche explícito capturado e registrado pelas câmeras. E o mais grave, enganar o eleitor – é diferente de fazer promessa – mas no sentido popular, aplicar 171. Como bom bandido manda sua assessoria publicar nas redes sociais o vídeo com a verdade.

No entanto, transmissões oficiais ao vivo veiculadas nos dias 18 de março de 2021 e 6 de maio de 2021, não deixam dúvidas, só asco. O então presidente Jair Bolsonaro simula graficamente uma pessoa sufocando por falta de ar, franzindo o rosto e arfando diante das câmeras.

O desabastecimento de oxigênio hospitalar na capital amazonense no início de 2021 não foi um evento acidental ou imprevisível. No auge do colapso, em 14 de janeiro de 2021, o consumo de oxigênio em Manaus disparou para 76,5 mil metros cúbicos diários, enquanto a capacidade de produção somada das fornecedoras locais era de apenas 28,2 mil metros cúbicos diários.

O resultado foi um déficit assustador de 48,3 mil metros cúbicos de oxigênio por dia aceleração do sufocamento e mortalidade em massa. Só no mês de janeiro de 2021, Manaus registrou 2.195 mortes por Covid-19 (ultrapassando 4.000 mortes nos dois primeiros meses do ano durante o pico da variante Gama).

Essa encenação traz à memória o contraste vivenciado em Alcântara, no Maranhão. De valor histórico inestimável, com suas ruínas seculares, a abriga em seu território uma das maiores contradições do Brasil contemporâneo: de um lado, a hipertecnologia do Centro de Lançamento de Satélites da Aeronáutica; do outro, a extrema pobreza que cerca as comunidades quilombolas e a rotina dura dos pescadores artesanais que resistem secularmente na Baía de São Marcos. É justamente na sabedoria calejada desses pescadores que se ouve um ditado cirúrgico para a atitude de Flávio no debate: “Já viu piranha parir piaba?”. O dito maranhense sintetiza a ilusão de quem espera postura ética, empatia ou compromisso com a verdade por parte de quem carrega o mesmo DNA e reproduz a mesma cartilha de desdém e negação do clã político a que pertence.

O deboche do pai e o negacionismo do filho não passaria de uma tradição de família de reles criminosos. Ou mesmo na grandeza do planalto, de um ex-presidente agora preso.

Mas não. E é aí que tá o abismo e mora o perigo. Defender a inocência de um criminoso, tentar aplicar um golpezinho em plena grande audiência de um debate à porta do Poder, não é arrogância, é desaforo e costas na fervura que aquece o chão por onde rastejam os submissos às migalhas. ‘É o preço de quem vende a pátria. Quem vende pátria, fica sem crédito no mercado. Quem não tem pátria, vende a própria mãe.

 

 

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