O deboche da normalidade, a omissão da defensória e os eleitores que são o princípio e o fim de uma eleição condenados ao purgatório do Dom Bosco

Sete horas após o início da votação, o Colégio Dom Bosco registra filas de até 3 horas por eleitor. Diante da indignação popular, a Defensoria Pública-MA e a Justiça Eleitoral tratam a humilhação do eleitor como "normalidade", revelando o desdém institucional com o verdadeiro soberano da democracia.
 
Primeira Página | Denúncia & Opinião

SETE HORAS APÓS ABRIR AS URNAS, DOM BOSCO SEGUE COM FILAS DE 3 HORAS DE ESPERA
DEFENSORIA-MA E TRIBUNAIS VIRAM AS COSTAS AO CIDADÃO E TRATAM O CAOS COMO “NORMAL”

A escandalosa inversão de valores no maior colégio eleitoral do Renascença: enquanto o eleitor enfrenta o calvário da espera, a Defensoria Pública-MA e a Justiça Eleitoral debocham da dignidade de quem é o verdadeiro titular da democracia. Do Dom Bosco ao Rio de Janeiro, o ar rarefeito…

📍 São Luís (MA) 🗓️ Eleições 2026 ⏱️ Atualizado às 15h00

FLAGRANTE DA OMISSÃO:
Viatura oficial presente no Colégio Dom Bosco durante o colapso nas filas. Abordada pela reportagem, a autoridade do órgão recusou atendimento e declarou que a espera desumana era “normal”. (Foto: Registro Jornalístico / Placa Documentada)

O Caos do Dom Bosco em Números

  • Tempo decorrido: 7 horas após a abertura das seções
  • Média de espera na fila: 3 horas de calvário por eleitor
  • Porte do local: Maior colégio eleitoral do Renascença (31 seções, +12 mil eleitores)
  • Postura das autoridades: Omissão, recusa de diálogo e discurso de “normalidade”

O princípio e o fim de qualquer eleição é — e sempre será — o eleitor. Não são os juízes em suas togas, não são os tribunais eleitorais com seus comunicados plastificados, tampouco os candidatos que desfilam sorrisos encomendados em busca do poder. No entanto, o que se presenciou no Colégio Dom Bosco, na 3ª Zona Eleitoral de São Luís, foi a cristalização de uma inversão de valores perversa: o cidadão transformado em réu de um processo que deveria celebrá-lo.

Acompanhar as mais de 3 horas de espera no maior colégio eleitoral do bairro do Renascença não foi apenas testemunhar o cansaço físico. Foi ver a dignidade do maranhense ser consumida em fogo brando. Funcionários do TRE-MA, cumprindo educadamente seus papéis, tentavam amenizar o caos afirmando com naturalidade que a situação “já era prevista”. Mas para o eleitor retido na fila, a previsão da desordem não serve de consolo; serve de acusação.

Depois de horas a fio sob o sol e o abafamento, o que se via no rosto do eleitor maranhense não era revolta ruidosa, mas algo mais profundo e doloroso: a indignação silenciosa. O desentendimento estampado no olhar de quem percebe que algo está profundamente errado, mas não tem os meios técnicos para decifrar a engrenagem que o pune. O que se testemunha não é um atraso pontual, mas o retrato tétrico da falência do serviço público no dia mais importante da cidadania.

O Deboche da “Normalidade” e o Escárnio da Defensoria Pública-MA

Diante de eleitores exaustos, idosos sem assistência e trabalhadores retidos por até três horas sob o calor, a reação das instituições flertou com o escárnio. A chegada de uma viatura da Defensoria Pública do Maranhão (Defensoria Pública-MA) — órgão cuja razão de existir é justamente a defesa do cidadão vulnerável e aviltado — trouxe uma esperança de socorro que durou poucos segundos.

Interpelada sobre quais providências seriam adotadas para cessar a humilhação pública, a autoridade chefe do órgão protagonizou uma cena deplorável: cravou que “aquilo era normal” e, sem hesitar, virou o rosto e saiu andando, negando-se a prestar atendimento e a fiscalizar o caos. Para blindar a omissão, um agente de óculos escuros e postura de serviçal da corte postou-se como barreira, repetindo o mantra anestésico de que “tudo estava dentro da normalidade”.

“Dizer que passar 3 horas em uma fila após sete horas de votação já decorridas é ‘normal’ configura um autêntico deboche à inteligência do maranhense. A obrigação do Estado não é apenas garantir o voto às 22h da noite; é respeitar o tempo e a dignidade de quem o sustenta.”

Registrar tais atitudes e documentar a presença das viaturas não é questão de melindre pessoal, mas de credibilidade institucional. Credibilidade não é abrir mão do que exigimos do serviço público. Pouco importam os nomes ou as vaidades individuais dos burocratas de plantão, mas a instituição tem um dever constitucional indelegável a cumprir. E falhou.

A Farsa do “Horário de Pico” e a Transferência de Incompetência

A justificativa oficial repete-se como um biombo conveniente: “o problema é a concentração de eleitores no horário de pico”. Culpar a escolha do cidadão por votar no mesmo horário é uma manobra sórdida para transferir a responsabilidade da incompetência logística para a própria vítima. O horário de pico pode ser tudo, menos culpa do eleitor.

A concentração de eleitores é um fato estatístico sabido e previsível há décadas. Se o fluxo é intenso, a obrigação dos Tribunais Eleitorais (TRE-MA e TSE) é redimensionar a estrutura para servir a “Sua Excelência, o Eleitor”: dobrar o número de urnas por seção, reforçar a equipe de mesários e modernizar a logística. Tratar a fila como catástrofe imprevisível é confessar a incapacidade de organizar o básico.

Nesse circo de horrores, a tragédia ainda contou com o desfile de diversos candidatos que circundavam o Dom Bosco como estrelas de camarote, indiferentes à dor alheia, colhendo cumprimentos e desfrutando da tietagem de eleitores que, anestesiados pelo cansaço, ainda murmuravam nas filas: “Sabe quem estava ali? O deputado tal”. Seria cômico, se não fosse a triste constatação de que até os postulantes ao poder viam o povo apenas como figurante de seu teatro político.

Do Maranhão ao Rio de Janeiro: O Colapso Sistêmico

O espetáculo grotesco visto no Colégio Dom Bosco não foi um ponto fora da curva, mas o espelho de um modelo eleitoral cambaleante em todo o país. No Rio de Janeiro, o cenário de desrespeito repetiu-se com contornos ainda mais graves.

Mais de duas horas após o encerramento oficial das votações, o TRE-RJ ainda registrava extensas filas nas seções eleitorais, com eleitores aguardando nas zonas da Baixada Fluminense e da Zona Oeste por até 4 horas para conseguir votar. Diante do colapso, a Justiça Eleitoral fluminense sacou da algibeira as mesmas desculpas burocráticas: “validação biométrica cruzada com outros órgãos”, “elevado comparecimento” e a complexidade do pleito.

O diagnóstico nacional é um só: sob a maquiagem da eficiência tecnológica, os tribunais regionais entregam um atendimento lento, cansativo e desumano.

A Soberania Pertence ao Eleitor

O jornalismo que se preza não se curva à linguagem asséptica dos boletins oficiais. Ele precisa ser crítico, irônico e ácido para escancarar a realidade por meio da imagem narrativa. Imparcialidade não é atenuação ou cumplicidade com o desmando institucional; é dar voz ao sentimento do eleitor que padece na fila sem entender a engrenagem que o pune.

Depois de imporem três horas de suplício, descaso institucional da Defensoria Pública-MA e omissão dos tribunais, os burocratas de gabinete ainda têm a pachorra de repetir o velho clichê preconceituoso das elites: “e depois dizem que o brasileiro é quem não sabe votar”.

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