O “Vorcarinho” de Brasília, William Tomaz, a magia da sociedade oculta e a bet de Flávio Bolsonaro

Há na política brasileira uma categoria lírica fascinante: a da “amizade desinteressada” entre detentores do poder e operadores de bastidor.    Segundo a versão cor de rosa que a campanha do senador Flávio Bolsonaro tenta vender ao eleitorado, suas viagens a Cascais e à Riviera Francesa em jatinhos particulares, seus safáris na África do Sul e seus repasses milionários seriam apenas frutos de um fraterno companheirismo com o advogado Willer Tomaz

 O problema é que a Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal resolveram olhar por trás da maquiagem e encontraram uma engrenagem que em nada lembra afeto altruísta — e sim uma bilionária sociedade oculta nas sombras do mercado de apostas.

  Brasília consagrou a figura do operador multifacetado — e o advogado Willer Tomaz desponta como o perfeito “Vorcarinho” do ecossistema. Trata-se da versão júnior ou sósia brasiliense do banqueiro Daniel Vorcaro: a figura com quem Willer  compartilha cotas de jatinhos executivos.

A investigação da PF joga luz sobre o milagre dessa metamorfose. Como um ex-comerciante de Taguatinga — cuja lojinha de informática faliu nos anos 2000 — se transformou no “maior apostador do Brasil”, movimentando a assustadora quantia de R$ 5 bilhões em plataformas de bets em um único ano? A resposta não está em uma sorte fenomenal no jogo, mas sim na engenharia societária erguida nas sombras.

O roteiro revelado pelas investigações parece extraído de um manual de blindagem patrimonial. Na paradisíaca Ilha da Madeira, em Portugal, a holding Cathedral — dona da casa de apostas Best Bet, abençoada com licença de operação pela Loterj no Rio de Janeiro — dividia a mesma salinha comercial de número 105 com a Alcazar Holdings. Na ponta brasileira da operação, operando a partir dos gabinetes do poder, Flávio Bolsonaro ostentava o vistoso status de “usuário máster” da conta corporativa da Alcazar no banco Santander. Não se tratava de um mero observador: o perfil garantia ao senador privilégios absolutos para consultar saldos, alterar limites e autorizar movimentações financeiras. Tudo isso enquanto o escritório de advocacia do parlamentar faturava expressivos R$ 14 milhões e sua família cruzava os céus da Europa a bordo de aeronaves bancadas pela estrutura do “amigo”.

A sincronia da história beira o cômico: a remoção formal de Flávio Bolsonaro da gestão da conta corporativa ocorreu em maio de 2025, no exato dia em que o senador e o advogado voavam juntos rumo a Nice. Enquanto isso, o Ministério da Fazenda apontava que Willer Tomaz movimentava a inacreditável cifra de R$ 5 bilhões em plataformas de bets em um único ano, ostentando o caricato título de maior “apostador” do país e sacando R$ 200 milhões em dinheiro vivo.

A piada, claro, custa caro ao interesse público. O que as apurações desenham não é uma sequência de coincidências, mas o uso da função pública para gerir negócios opacos, operar casas de apostas em paraísos fiscais e lavar recursos sob o manto de contratos de fachada. No topo desse ecossistema em que o mandato serve de álibi para o capital financeiro, o advogado consagra-se como a peça que faltava no tabuleiro — revelando-se, ao final do espetáculo, o perfeito e irônico “Vorcarinho” do poder.

Velho Conhecido do Maranhão: A Teia de Willer Tomaz na Mídia e na Política do Estado

Embora tenha ganhado projeção nacional ao se tornar o ponto vulnerável da campanha de Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro, o advogado e empresário Willer Tomaz não é um estreante nos bastidores do poder. No Maranhão, seu nome há muito tempo figura como peça central de engrenagens políticas e empresariais de peso.

Muito antes das investigações sobre a Best Bet na Ilha da Madeira, Tomaz construiu uma sólida aliança no estado com o senador Weverton Rocha (PDT-MA). Em relatórios encaminhados ao STF no âmbito da Operação Sem Desconto, a Polícia Federal classificou o advogado como um verdadeiro “hub financeiro, logístico e patrimonial” a serviço do parlamentar maranhense.

Conforme apurado pelos investigadores, empresas ligadas ao advogado — como a WT Administração de Imóveis — foram utilizadas para adquirir uma mansão de luxo avaliada em R$ 6 milhões no Lago Sul, em Brasília, utilizada por Weverton, além de garantir a cessão constante de aeronaves executivas. Em outra frente de apuração, relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e da PF identificaram repasses impressionantes de R$ 285,6 milhões para contas do advogado via empresa Embrasis, com transferências fracionadas que levantaram suspeitas de ocultação de origem.

A influência de Willer Tomaz no Maranhão atingiu outro patamar em 2020, quando o advogado adquiriu o Sistema Difusora de Comunicação (afiliada do SBT no estado) da família do ex-senador Edison Lobão, assumindo a presidência do conselho do grupo de mídia. A expansão das concessões e retransmissoras da emissora pelo interior do estado contou com uma tramitação notavelmente célere no Ministério das Comunicações, viabilizada por meio de ex-assessores e antigos sócios do advogado que ocupavam cargos estratégicos na pasta.

Transitando com a mesma desenvoltura entre o PDT maranhense, o PL bolsonarista e o mercado financeiro, Willer Tomaz demonstra que sua teia de influências não possui amarras ideológicas. No Maranhão ou em Brasília, sua trajetória revela como o controle de meios de comunicação e a gestão de ativos ocultos servem de combustível para a manutenção do poder.

O OUTRO LADO

O senador Weverton Rocha sustentou que todas as suas movimentações financeiras têm origem em atividades profissionais e empresariais legítimas, devidamente informadas à Receita Federal. Ele ressaltou que o próprio Supremo Tribunal Federal e o Ministério Público Federal reconheceram a ausência de provas diretas de seu envolvimento em ilícitos. Quanto às transferências direcionadas à sua esposa, a defesa justificou que os montantes correspondem a honorários por serviços de advocacia regularmente prestados ao escritório de Willer Tomaz. Por fim, o parlamentar atribuiu as investigações e a inclusão de seus familiares ao acirramento da disputa política.

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