
A história humana não caminha em linha reta; oscila como um pêndulo. Há um compasso recorrente que se repete por volta do primeiro quarto de cada século: uma fase em que o mundo cansa do figurino antigo, rasga o roteiro e assiste à exaustão definitiva dos líderes e modelos forjados na centúria anterior. Não é mística nem combustão espontânea; é o ritmo implacável das grandes transições civilizatórias.
Nos anos 1920 do século passado, o Brasil acordava de sobressalto: a Semana de Arte Moderna sacudia as velhas formas, as revoltas tenentistas abalavam os quartéis e a política oligárquica do “café com leite” começava a ruir até desabar de vez na Revolução de 1930. Cem anos depois, nos novos anos 20 do século XXI, o ciclo se repete com precisão histórica: a emergência avassaladora de novos paradigmas técnicos coincide exatamente com o crepúsculo de toda a geração que desenhou a Nova República e a redemocratização.
1. O carrossel das elites, a farda e o macacão fabril
Para medir a gravidade do impasse contemporâneo, é preciso olhar a trajetória nacional sem as lentes da conveniência ideológica. O Brasil experimentou todos os arranjos de poder imagináveis ao longo do último século.
Passamos pela República Velha dos barões da terra até a ruptura promovida por Getúlio Vargas. É imperativo admitir uma verdade incômoda: se Getúlio não tivesse exercido a autoridade centralizadora e o punho de ferro do Estado Novo, jamais teríamos a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), o voto feminino e a legislação trabalhista estruturada. O Congresso submisso às oligarquias da época jamais aprovaria tais avanços por mero consenso espontâneo.
O progresso social brasileiro quase sempre ingressou pela porta dos fundos de uma imposição histórica.
Mais tarde, suportamos vinte e um anos de regime militar, com modernização conservadora e controle institucional estrito. Na redemocratização, o pêndulo oscilou novamente até vivenciarmos uma experiência inédita no Ocidente: o trabalhador fabril, forjado no chão de fábrica e no sindicalismo combativo do ABC paulista, ascendeu à Presidência da República. A trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva representou o ápice e o limite do trabalhismo possível no país — uma conciliação pragmática que ampliou o consumo das bases enquanto acomodava os ganhos monumentais do sistema financeiro. Esse ciclo, contudo, atingiu sua estação final.
2. O crepúsculo dos dinossauros e o vácuo de 2030
O encerramento biológico de Lula simboliza a despedida de toda uma linhagem de líderes que monopolizaram as urnas e os palanques por quatro décadas. Mas a terra arrasada estende-se por todo o tabuleiro nacional.
A elite política que conduziu o país nas últimas décadas foi gradativamente varrida, neutralizada, encarcerada ou enredada em tribunais. De figuras centrais da República que conheceram celas e tornozeleiras aos próceres da direita radical atingidos pela inelegibilidade e pelas investigações federais, o centro de gravidade desmoronou.
José Sarney surge no cenário nacional como figura incontornável: ora testemunha ocular de cada gabinete da República, ora réu e acusado da história pela montagem do patrimonialismo.
Com o recuo definitivo de Sarney e a perda de tração de seus herdeiros eleitorais, apaga-se a última lâmpada do modelo oligárquico tradicional. Ao mesmo tempo, novos quadros que disputaram o protagonismo em eleições recentes queimaram seu capital em rivalidades precoces, enquanto nomes de peso institucional foram absorvidos pelo Judiciário.
O saldo dessa derrocada é um país rachado ao meio por massas de dezenas de milhões de votos que se repelem mutuamente, diante de um horizonte sem sucessores consolidados. Quem ocupará o centro do palco em 2030? O que se desenha é um imenso vazio.
3. A maquinaria digital: dispersão espontânea ou projeto de capital?
Enquanto a representação política definha, a sociedade atravessa uma mutação invisível e metódica. Engana-se quem supõe que a atomização social seja fruto do mero acaso.
Nas décadas de 1970 e 1980, denunciar que o capital transnacional moldava comportamentos coletivos rendia o rótulo imediato de paranoia e teoria da conspiração. Hoje, o mecanismo opera sem subterfúgios: a engenharia do algoritmo foi desenhada para a monetização imediata da atenção e da discórdia.
O abandono da leitura reflexiva, o definhamento do afeto e da conversa presencial, e a hegemonia da comunicação fragmentada por telas de aplicativos e estímulos rápidos atendem com rigor à lógica econômica. O indivíduo isolado, viciado no disparo contínuo de dopamina e consumido pela ansiedade, não constrói vínculos comunitários, não organiza sindicatos e não articula projetos coletivos. Torna-se o consumidor ideal: compra pelo desespero e vota pelo ressentimento.
A aceleração trazida pela Inteligência Artificial surge não apenas como fronteira técnica, mas como a pá de cal sobre a autonomia intelectual. Ao delegar à máquina o ato de formular, redigir e interpretar, a cidadania abre mão da própria substância crítica que sustenta o pacto democrático.
4. O salto no escuro
Chegamos ao fechamento deste quarto de século com as certezas de outrora esgotadas e nenhum rumo delineado. A elite clássica ruiu, o regime de força deixou suas marcas, o sonho trabalhista cumpriu seu curso e as aventuras autoritárias recentes desnudaram sua própria esterilidade.
A máquina do capital segue girando de forma metódica e fria. Cabe interrogar se a geração que herdará o país até 2030 terá a estatura de levantar a fronte das telas, enxergar a dimensão do fosso institucional e resgatar o valor do diálogo real — ou se continuará marchando sonâmbula, aplaudindo o próprio abismo a cada nova notificação digital.
