Por trás das alianças e tensões, o governador Carlos Brandão usa a força da máquina pública para ditar as regras do jogo. Na mesa de apostas, a sucessão de 2026, o fator Lula e um cálculo político que já mira o ano de 2030.
O cenário político maranhense vive uma transição de eras. Com Flávio Dino – o grande arquiteto da frente ampla que governou o estado na última década – vestindo a toga do Supremo Tribunal Federal (STF), o centro de gravidade do poder mudou definitivamente para o Palácio dos Leões. E o atual dono da caneta, Carlos Brandão (PSB), tem demonstrado que aprendeu as lições de pragmatismo do seu antecessor, mas agora dita o ritmo com a sua própria partitura.
A grande tensão que domina os bastidores políticos do Maranhão hoje gira em torno da sucessão de 2026. O acordo originário, costurado ainda sob as bênçãos de Dino e do presidente Lula, previa que Brandão renunciaria em abril de 2026 para disputar o Senado, passando o governo para o seu vice, Felipe Camarão (PT), o herdeiro natural da ala “dinista” e da esquerda. No entanto, a política detesta vácuos e certezas antecipadas.
- A Engenharia Política de Flávio Dino (2014-2018)
- Para entender o presente, é preciso olhar como a máquina foi montada. Flávio Dino derrotou a oligarquia Sarney usando um pragmatismo afiado. Em 2014, percebendo que a esquerda sozinha não venceria, fez uma aliança improvável com o PSDB, escolhendo o tucano Carlos Brandão como vice para tranquilizar o agronegócio e o empresariado. Em 2018, sob um cenário nacional turbulento, Dino resistiu às pressões da própria esquerda para trocar o vice. Manteve Brandão (que foi para o Republicanos) e construiu uma aliança mastodôntica de 16 partidos, que ia do PT ao DEM, garantindo a reeleição no 1º turno.
A Tática da Ameaça Máxima

Ao contrário do que esperavam os aliados mais à esquerda, Brandão não assumiu um papel de mero repassador da faixa governamental. Movido pelo pragmatismo do seu núcleo duro – liderado por seu irmão, Marcus Brandão, que fortaleceu o MDB no estado –, o governador passou a esticar a corda.
A sinalização de que Brandão poderia simplesmente não renunciar em 2026, ficando até o último dia de mandato para eleger o seu sobrinho, o secretário Orleans Brandão, caiu como uma bomba no xadrez político.
Essa ameaça é, na verdade, uma sofisticada tática do jogo político. Afinal, na política, a ameaça de tomar tudo costuma ser a melhor estratégia para garantir a metade mais valiosa. Ao esticar a corda e ameaçar continuar no cargo, Brandão força um acordo nos seus termos: a indicação de Orleans Brandão como vice na chapa de Felipe Camarão.
Esse movimento revela que o jogo não é apenas para daqui a dois anos; é para a próxima década. Se Felipe Camarão (PT) for eleito governador em 2026, ele naturalmente buscará o Senado em 2030, o que o obrigará a renunciar em abril daquele ano (ficando apenas 3 anos no poder). O vice que assumir em 2030 herdará o estado inteiro. Se esse vice for Orleans Brandão, a família Brandão garante a hegemonia do Maranhão no exato momento em que o país viverá a grande ruptura geracional do “pós-Lula”. É um formidável seguro de vida político a longo prazo.
O acordo intermediado por Lula só é possível com a garantia de apoio pleno à sua candidatura ao Senado, sem qualquer “fogo amigo”. Reproduzindo, inclusive, a sua fidelidade em 22.
- O Teste de Fogo e o Racha na Base (2022)
- O atual embate é um espelho de 2022. Naquele ano, Dino precisava sair para o Senado e deixar a cadeira para Brandão. O senador Weverton Rocha (PDT) tentou forçar sua própria candidatura ao governo, alegando ter mais prefeitos. Mas Dino escolheu Brandão com base numa premissa fria: o peso da caneta. Dino sabia que o governador em exercício desidrataria qualquer adversário. Weverton rachou a base, mas a aposta de Dino estava matematicamente correta: Brandão usou a máquina, cooptou os prefeitos e venceu no 1º turno.
A Vulnerabilidade da Base e o Risco do “Pires na Mão”
Se a ameaça de Brandão de ficar no cargo até o fim é real ou uma tática, o fato é que ela expõe a maior fragilidade da chamada “resistência dinista/camaronista”.
Caso Brandão decida não sair, os deputados estaduais e federais, além dos candidatos dinistas, correm o sério risco de ficar de “pires na mão” em pleno ano eleitoral. Fazer oposição ao Palácio dos Leões às vésperas de uma eleição estadual e federal é um flerte com o suicídio eleitoral.
Sem emendas liberadas, sem controle de secretarias e sem o maquinário do Estado em seus redutos eleitorais, o instinto de sobrevivência dos parlamentares fatalmente falará mais alto do que qualquer lealdade ao grupo originário?
Com a caneta na mão durante todo o ano de 2026, Brandão teria poder de fogo para eleger o sobrinho, fazer a maior bancada do legislativo e ainda influenciar decisivamente as duas cobiçadas vagas ao Senado.
- A Assimetria de Poder
- Se Flávio Dino impôs o sucessor em 2022, por que Brandão enfrenta resistências para sequer indicar o vice em 2026? A resposta está na assimetria de capital político. Dino era o “criador” do grupo, exercendo liderança moral, carismática e histórica. Brandão é o “beneficiário” dessa engenharia, com um poder puramente administrativo. Além disso, em 2022 a briga era paroquial (Brandão x Weverton). Em 2026, Felipe Camarão é o projeto do PT nacional. Asfixiar Camarão significa peitar o Palácio do Planalto, algo que exige um cacife que ultrapassa as fronteiras do estado.
O Pragmatismo de Lula e o Xadrez de 2030
A esperança de alguns setores de que o presidente Lula faria uma “intervenção” no Maranhão para enquadrar Brandão e salvar a cabeça da chapa puro-sangue de esquerda ignora a história petista.
Luiz Inácio Lula da Silva é, antes de tudo, um pragmático. Em 2026, buscando seu último grande projeto nacional (seja a reeleição ou a eleição de um sucessor), Lula precisará de enormes bancadas no Congresso e de paz nos estados. Se Carlos Brandão demonstrar que controla a máquina, as lideranças locais e os prefeitos, a regra de ouro de Brasília prevalecerá: o Planalto faz acordo com quem tem a caneta, não com quem a perdeu. Setores expressivos do PT maranhense, inclusive, já operam alinhados ao Palácio dos Leões, cientes dessa realidade.
Xeque-mate
O Maranhão assiste a uma aula prática de realpolitik. A transição da era Flávio Dino para a era Carlos Brandão provou que as amarras ideológicas são elásticas quando confrontadas com o diário oficial.
Brandão usa a frieza dos números a seu favor: controla as emendas, os prefeitos e o calendário. O desenrolar de 2026 não será decidido por cartas de princípios ou saudades do passado, mas pela velha e implacável matemática de quem tem força para esticar a corda até o limite, garantindo que, quando ela soltar, os dividendos caiam exatamente no seu quintal.
LINHA DO TEMPO: A ENGENHARIA DE FLÁVIO DINO

