Se o absolutismo de Eduardo Braide se sustenta na imagem solitária do “Rei Sol”, sua comunicação com as massas opera em um terreno ainda mais perigoso: o da taumaturgia. Na Idade Média, acreditava-se que os reis possuíam o toque sagrado capaz de realizar curas milagrosas. Em 2026, em São Luís, esse toque divino foi substituído pelo “efeito especial”. O episódio da “neve” artificial em bairros periféricos como o Piancó e as contagens regressivas para ligar a luz elétrica em comunidades esquecidas não são gestos de gestão; são atos de ilusionismo que tentam transformar o dever público em um espetáculo de magia particular.
A cena da neve caindo sobre o asfalto quente da periferia é a síntese da alienação estética. Enquanto o cidadão padece com a falta de saneamento básico, transporte precário e postos de saúde desabastecidos, o prefeito oferece o lúdico importado, uma fantasia europeia que serve como cortina de fumaça para as carências estruturais. A “neve” de Braide funciona como uma anestesia visual. O objetivo não é melhorar a vida de quem mora no Piancó, mas gerar o vídeo perfeito para as redes sociais, onde a miséria real é ofuscada pelo brilho falso do gelo químico. É a política do “Pão e Circo” atualizada para a era do algoritmo, onde o entretenimento barato substitui a dignidade duradoura.
O roteiro se repete na entrega de serviços básicos. Ao reunir moradores, entre eles crianças e idosos, para “contar até três” antes de acender uma lâmpada de rua ou ligar uma bomba d’água, o gestor subverte a lógica da cidadania. Ele aponta para o céu como se o benefício fosse uma descarga de energia vinda de seus próprios dedos, e não o resultado de engenharia, impostos e planejamento. Essa “contagem regressiva” é uma ferramenta de infantilização do cidadão. O morador deixa de ser o titular de um direito e passa a ser o espectador maravilhado de um “milagre” concedido pela bondade do governante.

Essa estratégia de “fazer nevar” onde falta água ou “fazer luz” onde falta segurança é o que chamamos de idiotização planejada. O marketing de Braide sabe que o cidadão desassistido, cansado de anos de abandono, é uma presa fácil para o impacto emocional do imediato. Ao focar no “mágico”, o prefeito evita que o povo faça as perguntas difíceis: Por que essa luz demorou tanto? Quanto do nosso dinheiro foi gasto nessas máquinas de efeito especial? Por que o secretário responsável pela obra nunca aparece no vídeo? A resposta é óbvia: o mágico nunca divide o palco com quem monta o cenário; ele precisa que o público acredite que o truque é real.
Ao renunciar para disputar o Governo, Braide deixa para São Luís um legado de sombras iluminadas por refletores de palco. O “Mágico de Oz” da Ilha agora pretende levar seu show de variedades para o interior do Maranhão, apostando que a luz artificial e a neve química serão suficientes para esconder a ausência de um projeto de estado que seja verdadeiramente coletivo e transparente. Cabe a nós, no entanto, lembrar que quando o show acaba e as luzes se apagam, o cidadão continua vivendo na realidade nua e crua do chão de barro — aquele que nem a melhor edição de vídeo consegue esconder para sempre.
