
Existe uma máxima no Maranhão que o tempo e a pressa da espetacularização tentam apagar: o Bumba-meu-boi não é o que se vê no palco; o Boi é o que se vive no terreiro.
Iniciamos hoje uma série de reflexões sobre a urgência de redirecionarmos o olhar — e o investimento público — para o útero da nossa maior brincadeira: os ensaios.
Se hoje o turista que nos visita consome um “show” emoldurado por grades e cronometrado por editais, ele está perdendo a essência do que nos faz únicos no mundo. É preciso compreender que o ensaio não é um “treino” para a festa; ele é a própria festa em seu estado mais bruto e fascinante.
O ciclo de vida do bumba-meu-boi não começa com a assinatura de um edital ou com a montagem de um palco de metal no mês de junho. Ele renasceu e renasce todos os anos no Sábado de Aleluia. Enquanto em outras paragens o feriado da Semana Santa se encerra com a malhação do Judas, aqui, nos terreiros da Ilha, o que se ouve é o primeiro estrondo das matracas, o peso da zabumba e o tremular do bandeirão. É a Aleluia com a garantia da noite permanente no terreiro; é o início de um ciclo vital que culminará na glória do batismo por São João.
É preciso lembrar que os ensaios nunca tiveram apoio público. Historicamente, o governo limitava-se a distribuir o “brilho”: canutilhos e miçangas que davam riqueza às indumentárias e ao couro estreado apenas no batismo de São João. Mas a força vinha do chão. Nos anos 80/90, os ensaios do Boi da Madre Deus eram ponto de encontro. Sem um centavo de verba oficial, eles pulsavam com a participação orgânica de estudantes de todos os cantos e dos vizinhos do Centro Histórico. Era um convívio que educava o ouvido e criava uma paixão que durava a vida inteira.
Vácuo de Identidade
A mudança de postura do Estado, ao assumir o papel de grande organizador e centralizador, alterou essa lógica. O investimento público, em vez de fomentar o ciclo completo e atrair turistas para a base, acabou por limitar o evento ao que cabe no edital. O Boi subiu ao palco, mas a distância física e o som “ensurdecedor” das caixas de som silenciaram o aprendizado da toada.
É nesse vácuo de identidade que os sotaques de orquestra e a beleza plástica dos “bois de bunda” ganharam espaço, preenchendo com visual o que faltava em memória afetiva. Mas para o sotaque de matraca, o som das zabumbas e as cantorias de verso, não há saída fora do convívio. Se não investirmos nos ensaios, trocaremos a “alma viva” de um povo por um mero registro folclórico para turista ver.
O Convite ao Invisível
Precisamos vender ao mundo o que temos de mais visceral. O amanhecer em um terreiro, com o sol batendo no couro do boi e o som das madeiras ditando o pulsar de uma comunidade, é o maior espetáculo da terra. Mas para que isso continue existindo, o Estado precisa entender: o lucro do São João não deve ser medido apenas pelo faturamento da rede hoteleira, mas pela vitalidade do terreiro que mantém o mestre motivado a passar o saber adiante.
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No próximo artigo, discutiremos a oportunidade histórica do governo Carlos Brandão em deixar um legado de redenção para a cultura maranhense. Por ora, fica a provocação: estamos investindo na vida da nossa cultura ou apenas na maquiagem do seu funeral?
