Os boçais

Por Fernando Brito

Será que alguém se espanta que um deputado vá à tribuna oferecer R$ 10 mil para quem lhe trouxer o cadáver de um bandido?

Ou que um tosco deputado do Mato Grosso do Sul, dono de uma hamburgueria que homenageava torturadores nos sanduíches, ofereça R$ 100 mil por informações sobre um suposto mandante da facada em Bolsonaro?

Estamos normalizando a barbárie de uma forma pior do que a dos tempos da ditadura militar, quando ao menos se tentava negar o uso destes métodos, na maioria das vezes.

Estudando o nazismo, a filósofa alemã (de origem judaica e radicada nos EUA) criou a figura da “banalização do mal”, que deixa de lado convicções religiosas e morais para tratá-lo como um fenômeno político.

“O praticante do mal banal não conhece a culpa. Ele age semelhante a uma engrenagem maquínica do mal. O mal banal parece ser um fungo, cresce e se espalha como causa de si mesmo, sem raiz alguma e atinge contingentes enormes das populações humanas, em diversos lugares da terra”, diz do pensamento de Arendt o professor Odílio Alves Aguiar.

Esta gente é pior que os fundamentalistas, porque nem mesmo fazem isso como fruto de uma convicção religiosa ou ideológica, mas porque isso lhes parece o normal, dever do “cidadão de bem”.

Importante lembrar que Arendt desenvolveu esta categoria estudando o comportamento de Otto Adolf Eichmann, o chefe nazista encarregado do extermínio de judeus. Ela cobriu seu julgamento, em 1962, e viu que ele se apresentava cumpria a sua obrigação, o seu dever. Eichmann era um como um ser humano normal, bom pai de família, não possuía nenhum ódio ao povo judeu e não era motivado por qualquer tipo de maldade.

O professo Odílio, em artigo para a revista Cult, nove anos atrás, explica o que se passa com estas figuras:

“O mal banal caracteriza-se pela ausência do pensamento. Essa ausência provoca a privação de responsabilidade. O praticante do mal banal submete-se de tal forma a uma lógica externa que não enxerga a sua responsabilidade nos atos que pratica. Age como mera engrenagem. Não se interroga sobre o sentido da sua ação ou dos acontecimentos ao seu redor.”

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