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    Flávio Dino: Bolsonaro privilegia o conflito, e muitos desejam ruptura legal

    Governador do Maranhão aponta ‘ethos nazifascista’ do presidente e alerta para risco à democracia, mas diz que com “flexibilidade tática” é possível discutir uma agenda alternativa, nacional e popular

     

    Flavio Dino em encontro em São Paulo: governo Bolsonaro não pensa em políticas distributivas ou enfrentar a crise social, além de praticar uma política externa ‘abertamente subalterna’

    Por Vitor Nuzzi  (Rede Brasil Atual)

    São Paulo – Se por um lado não se pode menosprezar o perigo de uma ruptura institucional, por outro ainda “há jogo”, desde que se apresente uma proposta que ultrapasse a retórica, avalia o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB). Ele defende uma “flexibilidade tática” para avançar política e efetivamente, com a apresentação de uma agenda nacional e popular, enfrentando uma conjuntura de desagregação política e anomia (ausência de leis, regras).

    “Ganhamos todas as hashtags e perdemos todas as batalhas reais de 2013 para cá. Precisamos ter vitórias no mundo real”, afirmou Dino, durante entrevista coletiva a veículos alternativos realizada na noite de quarta-feira no Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, na região central de São Paulo, com a presença, entre outros, dos ex-ministros Paulo Vannuchi e Roberto Amaral, do historiador Luiz Felipe de Alencastro e dos jornalistas Fernando Morais e Raimundo Pereira.

    No início da semana, o governador participou do lançamento de um grupo de oposição ao governo, após reunir-se com o ex-prefeito Fernando Haddad (PT), o ex-governador da Paraíba Ricardo Coutinho (PSB) e o ex-candidato à Presidência Guilherme Boulos e sua vice, Sonia Guajajara, ambos do Psol. Dino considera que às vezes há certa “mitificação” quando se fala na formação de uma frente política. “São várias frentes, com vários papéis”, diz, citando a Brasil Popular e a Povo sem Medo. “O que precisamos ter é essa dimensão da luta política e institucional.”

    Várias forças políticas garantiram a Constituição que vigora desde 1988, lembra Dino, citando nomes como Mário Covas e Ulysses Guimarães. “O chamado centro democrático perdeu substância e qualidade nas últimas décadas.” Não pode haver “abordagens sectárias” e é preciso buscar o “homem médio”, o cidadão comum, defende.

    Militante do conflito

    Na visão do governador, o atual presidente é “filho legítimo de um ethos nazifascista que privilegia o conflito”, faz a opção pela “retórica do inimigo” e representa um projeto internacional. Esse papel de “militante do conflito”, como ele define, traz acirramento de algumas contradições: democracia e autoritarismo, pobres e ricos, nacionalismo e imperialismo.

    No primeiro caso, está, por exemplo, a “batalha retórica” em torno das comemorações do golpe de 1964, uma disputa entre uma visão democrática e uma perspectiva autoritária, com a evocação de um passado “glorioso”, como faz Bolsonaro, a esta altura comparado a Benito Mussolini. Dino destaca ainda a “tentativa de sufocar o movimento sindical brasileiro, o que desde 79/80 não se tentava de modo tão organizado”.

    Para ele, o caráter da “reforma” em discussão no Congresso é a “destruição da Previdênciapor intermédio da capitalização”. Mesmo partidos simpáticos ao governo defenderam a retirada de itens como o que altera o BPC (benefício de prestação continuada) e o que impacta negativamente o trabalho rural, mas mantiveram a questão da capitalização, vista como central pelo ministro Paulo Guedes.

    Mas uma agenda popular, como diz o governador, precisa trabalhar temas alternativos, como uma proposta de reforma tributária. Ficar apenas na oposição ao governo significaria cair em uma “armadilha retórica”. E a herança do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é fundamental: “Mesmo que se debata um novo lulismo, precisamos do lulismo como base”. O atual governo, lembrou, não tem como foco implementar políticas distributivas ou enfrentar a crise social. Uma reforma tributária progressiva é um dos caminhos para combater a crise.

    Ainda sobre a gestão Bolsonaro, o governador disse não lembrar de uma política externa “tão abertamente subalterna”. Uma agenda nacional, prega, precisa “combater o nacionalismo de uma só nação” – no caso, os Estados Unidos. “O vira-latismo se tornou, em larga medida, hegemônico.”

    Desvario político

    O Estado democrático de direito está “objetivamente em risco”, embora não se saiba, hoje, a que tipo de ruptura institucional o atual desvario político pode levar. “Não temos o direito, pela nossa experiência histórica trágica, de minimizar esse risco.” O governador vê nas manifestações de Bolsonaro não apenas precariedade, mas também um movimento consciente para manter a base (de apoio) tensionada. “Mas essa base é mais estreita do que aquela que o levou à vitória. A coesão hoje é menor”, completa.

    Ex-presidente do PSB, Roberto Amaral acredita que o país vive um processo de golpe desde o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e vê um quadro insustentável. “O impeachment foi um golpe de Estado”, concorda Dino. “Por um motivo simples: não havia base constitucional. Assim como o banimento da candidatura Lula”, acrescenta o governador maranhense. Não podemos descartar uma ruptura legal mais pronunciada, porque ela é desejada por muitos”, alerta, para mais adiante afirmar que ainda “há jogo” em disputa e que não é o caso de um fatalismo histórico. “É importante fazer os alertas certos para não combater os inimigos errados.”

    Ex-presidente do PCdoB, hoje à frente da Fundação Mauricio Grabois, Renato Rabelo identifica esgotamento do liberalismo, mesmo da social-democracia, o que abriu espaço para regimes identificados com o autoritarismo. Existe ainda uma disputa por hegemonia econômica. “Entramos numa transição mundial. Temos de realinhar forças. Não é só a esquerda que vai dar conta disso.”

    Alguns perguntas recaem sobre Ciro Gomes (PDT) e seus atritos recentes com o PT. Flávio Dino afirma que já fez críticas a ele – públicas e reservadas –, mas não prescinde da presença do ex-governador e ex-ministro. “Claro que Ciro é uma liderança do nosso campo político. Com seu patrimônio de erros e acertos, como todos nós. Agora, expurgá-lo? Isso eu não aceito de jeito nenhum.”

    Defesa do lulismo

    No encontro desta semana (“Um think tank leve, menos pretensioso”), com Haddad, Coutinho, Sonia e Boulos, por iniciativa deste, o governador disse que foi o primeiro a dizer sobre a necessidade de se chamar Ciro para conversas futuras. “E o primeiro a concordar foi o Haddad”, lembrou. “O Ciro esteve conosco nas batalhas de sustentação do governo”, acrescenta, fazendo ao mesmo tempo a crítica de que “atacar o lulismo é um desserviço”.

    “Assim como discordo dele atacar o lulismo, da mesma forma discordo que façamos algum tipo de expurgo por posições equivocadas”, afirma Dino, ao destacar também a importância do PDT, partido a qual Ciro está filiado. Para ele, o trabalhismo e o lulismo são referências.

    Hamilton Mourão, o vice, é uma opção, considerado o rápido desgaste do presidente? Dino pensa que não. “Talvez diminua o poder do Steve Bannon (assessor de Donald Trump, próximo do polemista Olavo de Carvalho, guru de Bolsonaro). Mas aumenta o poder das Forças Armadas.”

    O que fazer então?, perguntam alguns, sem esconder a angústia diante do momento político. “É guerra de movimentos”, define Dino, citando fatos como o consórcio formado pelos nove governadores da região Nordeste, articulações de personalidades políticas, a Comissão Arns de direitos humanos, a eleição de Felipe Santa Cruz para a presidência da Ordem dos Advogados do Brasil.

    Energia democrática

    O antagonismo entre o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-DF) e o bolsonarismo também pode ser um elemento importante. E a recente postura do Ministério Público Federal contra a determinação presidencial de “comemorar” 1964 representa “um descolamento do pacto antinacional, antipopular”. Assim, é preciso transformar o momento em “energia democrática e potencializá-la”.

    O comunista Flávio Dino arranca risos ao lembrar de sua “militância cristã” para destacar outro item que considera importante na conjuntura brasileira. “É preciso ter fé. A fé nos salva da perplexidade. Ela permite que nós reavivemos princípios”, diz.

    Algumas questões recaem sobre sua gestão à frente de um dos estados mais pobres do país. “Partimos de um diagnóstico que não ocultou as tragédias do povo do Maranhão”, lembrou Dino, afirmando que o objetivo é vencer a desigualdade “obscena”. Como avanços, lembra que o Maranhão tem três anos seguidos de saldo positivo no emprego formal e que hoje o estado é o que mais investe, em termos da fatia da receita líquida: 10%, ante uma média nacional de 4%. Ele acredita que, enquanto o Brasil cresceu 1% no ano passado, o Maranhão pode ter chegado a 3%, até 4%.

    Fernando Morais quer saber sobre o grau de unidade entre os governadores do Nordeste, onde acredita estar “o único núcleo visível da oposição organizada” e onde “a treva perdeu” em 2018. Direto, pergunta se Dino é candidato à Presidência da República.

    “O que permitiu a formação do consórcio (de governadores) é sobretudo o grau de confiança pessoal entre os nove”, afirma o maranhense, destacando o papel da resistência da região em defesa da institucionalidade democrática. Quanto à segunda pergunta, lembra que está para completar 51 anos (em 30 de abril) e o que fez até agora – juiz federal, deputado e governador – já o deixa feliz. Qualquer outro rumo depende de “um processo muito mais amplo, coletivo”, afirma, recordando ser “militante da causa popular desde os 15 anos”.

    Mídia e lideranças ligadas a Bolsonaro pregam ódio para provocar a ruptura democrática no País

        Jair Bolsonaro durante evento de campanha em Juiz de Fora (MG) quando acabou                                       sofrendo um atentado a faca na última quinta-feira

    O atentado contra a democracia não foi apenas a facada proferida por Adálio Bispo de Oliveira contra um candidato à presidência do País, mas também a reação de setores da mídia e de lideranças políticas ligadas a Jair Bolsonaro.

    Ambos, de acordo com suas peculiaridades, aproveitaram a situação para fomentar o ódio contra os partidos de esquerda, independente da declaração do suspeito à Polícia Federal de que o ataque foi a mando de Deus.

    Em ações coincidentemente articuladas, os veículos de comunicação politizam o caso destacando como notícia a filiação de Adálio Bispo ao PSOL, embora ela tenha ocorrido entre 2007 e 2014, e os líderes da extrema direita compartilharam em suas redes sociais foto montada associando-o a Lula  e culpam o Partido dos Trabalhadores pelo episódio.

    O candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro, general Antonio Hamilton Mourão, o pastor Silas Malafaia, o senador Magno Malta (PR-ES) e o presidente nacional do PSL, Gustavo Bebbiano, comandaram a estupidez.

    Enquanto o dirigente do PSL diz que “agora é guerra” e o general depois de reproduzir as convicções do regime militar (“Eu não acho, eu tenho certeza”) ao afirmar sem qualquer respaldo nas investigações iniciadas pela PF que o autor do atentado é o PT, manda bala (“se querem usar a violência, os profissionais da violência somos nós”), o pastor e o senador constroem nas redes sociais a narrativa para fundamentar a “certeza” do militar e provocar a fúria dos bolsominions.

      O general da reserva, candidato a               vice- presidente na chapa de               Bolsonaro, Hamilton Mourão”Eu não     acho, eu tenho certeza: o  autor do          atentado é do PT”, afirmou. “Se                  querem usar a violência, os              profissionais da violência somos             nós”, disse ainda em entrevista                             ao site Crusoé

    Malafaia espalha que “o criminoso que tentou matar Bolsonaro, é militante do PT e assessora a campanha de Dilma ao senado em Minas”; e Malta compartilha uma foto adulterada, com a imagem de Adélio Bispo no lugar de um apoiador de Lula durante uma manifestação em maio de 2017, quando o ex-presidente foi prestar depoimento ao juiz Sérgio Moro em Curitiba.

    Bem diferente da reação do próprio Bolsonaro e de outros líderes da direita quando dos atentados contra Lula e sua caravana no Paraná, que parabenizaram os gaúchos e sugeriram que o ataque foi montado pelos próprios petistas, todos os candidatos e principais lideranças e partidos de esquerda solidarizaram-se com o candidato do PSL, repudiaram o atentado e cobraram uma rigorosa, efetiva e rápida apuração do caso pela Polícia.

    Sabem no que deriva do clima de violência e ódio provocado pela politização de um atentado. Em 1954, com o mesmo apoio da mídia contrária aos interesses da maioria da população e que hoje teme o resultado das urnas, o atentado da Rua Toneleros derrubou e levou Getúlio Vargas ao suicídio.

    Meia volta, volver!

    Veja a foto original e a foto adulterada publicada pelo senador Magno Malta (depois                                          retirada) em suas redes sociais

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    • A coluna Deu no D.O. está no ar com os generosos contratos dos nossos divinos gestores públicos. Dos caixões (R$ 214 mil) de Itapecuru-Mirim ao material de limpeza de Coroatá (R$ 2 milhões), ainda figuram Viana, Matões, Porto Rico e São José de Ribamar. 
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