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Morre o ex-padre Alípio de Freitas, que atuou em São Luís, foi guerrilheiro e preso político no Brasil

Ex-padre português atuou nas áreas mais miseráveis de São Luís, participou da fundação das Ligas Camponesas e passou 10 anos preso durante o regime militar. Alípio morreu em Lisboa e deixa amigos e familiares no Maranhão

(Com informações do jornal português Opção e de artigo de João Ricardo W. Dornelles, professor da PUC-Rio, publicado no site O Cafezinho)

O ex-padre e ex-guerrilheiro Alípio de Freitas morreu na terça-feira, 13, em Lisboa, aos 88 anos. Ele morava em Portugal e os jornais do país deram ampla repercussão ao falecimento. Ele era jornalista.

Alípio de Freitas nasceu em Bragança, em 1929, e se tornou padre da Igreja Católica em 1952. Em 1957, mudou-se para o Brasil, baseando-se em São Luís, no Maranhão. Deu aulas na universidade e vinculou-se a movimentos sociais e políticos. No Congresso Mundial da Paz, em Moscou, dialogou com líderes soviéticos e conviveu com o poeta chileno Pablo Neruda e com a revolucionária espanhola Dolores Ibárruri Gómez, La Pasionaria. A Igreja Católica pressionou-o, por suas vinculações com a esquerda comunista, e Alípio de Freitas abandonou a vida religiosa.

No ano de 1957 veio para o Nordeste do Brasil, onde passou a lecionar História Antiga e Medieval na Universidade de São Luís, sendo vigário de uma paróquia da periferia da capital maranhense. Atuou nas áreas mais miseráveis de São Luís e celebrava as missas em português, antecipando o que cinco anos depois seria a nova orientação do Concílio do Vaticano II, do Papa João XXIII.

No ano de 1958 participou da fundação da Associação dos Trabalhadores Agrícolas do Maranhão, juntando-se às Ligas Camponesas no ano de 1960. Durante todo aquele período esteve envolvido nas lutas pela Reforma Agrária e, durante o governo de João Goulart (Jango), nas ações pelas Reformas de Base.

A se tornar crítico da ditadura, Alípio de Freitas acabou preso. O “Correio da Manhã” apresenta-o como um dos fundadores das Ligas Camponesas, ao lado de Francisco Julião. Depois de morar no México e em Cuba, retornou ao Brasil, clandestino. Ao lado da esquerda armada, organizou e executou atentados e foi preso pelo regime militar por 10 anos.

Ao ser preso, sofreu torturas. Liberado em 1979, mudou-se para Moçambique, em 1981. Mais tarde, na década de 1980, voltou para Portugal e integrou-se, como jornalista, à equipe de profissionais da RTP. Aposentou-se em 1994, aos 65 anos. Em seguida, em 2010, integrou-se ao Conselho Editorial do jornal “A Nova Democracia”.

No livro “Resistir É Preciso — Memória do Tempo da Morte Civil no Brasil” (Record, 279 páginas), Alípio de Freitas menciona o goiano Manuel Porfírio (torturadíssimo no DOI-Codi), filho de José Porfírio. Eles ficaram presos juntos. Na prisão, insistiram com o ex-padre se ele sabia do paradeiro de José Porfírio de Souza e de Aldo Arantes.

Trecho do livro: “A certa altura do interrogatório, quando eu mais rolava pelo chão do que ficava de pé, o capitão Correia Lima parou de dar-me choques elétricos e mandou que me levantasse, encostado a uma parede da sala. Disse que me retirassem um dos eletrodos de um dos pés; em seguida, ordenou-me que o ligasse no pênis. Recusei-me. O capitão Correia Lima gritou que eu tinha de ligá-lo. Calei-me, a expectativa do que iria acontecer. Então um soldado abaixou-se à minha frente e preparou-se para cumprir a ordem. Quando se aproximou, já com o eletrodo na mão, e se abaixava para ligá-lo, somei as poucas forças que tinha a todo o meu ódio e desferi-lhe um pontapé debaixo do queixo que o projetou de costas para o meio da sala. Um grito medonho partiu de todas aqueles gargantas enfurecidas: ‘Ao pau-de-arara, ao pau-de-arara com este filho da puta!’”

4 comentários sobre “Morre o ex-padre Alípio de Freitas, que atuou em São Luís, foi guerrilheiro e preso político no Brasil

  1. Lindonjonson

    Parabéns garrone pela informação sobre esse figura. E por nos lembrar que agentes do estado faziam
    Isso contra seres humanos presos.

  2. Lobo

    A tortura é uma prática lamentável. Mas esse sujeito era um terrorista. Colocou a vida de inocentes em perigo e sonhava em substituir uma ditadura por outra. A ditadura dos militares no Brasil já acabou há mais de trinta anos. A de Cuba continua, mesmo com a morte de Fidel. Esse foi também o risco que corremos e ao qual estaríamos sujeitos se prevalecesse a visão política e de mundo de tipos assim.

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